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Seja WOW!
Em seu recém-lançado livro,
o consultor Robert Wong dá dicas de como buscar o sucesso,
desde que ele seja exatamente aquele que você almeja e em
que acredita

Por Laila
Mahmoud
Robert Wong dispensa apresentações. Ex-presidente
de uma das gigantes de recrutamento, a Korn/Ferry, ele já
foi considerado pela revista The Economist um dos 200 melhores headhunters
do mundo. Mas não é aconselhando mais trabalho que
ele, hoje sócio da empresa de educação corporativa
Partnership and Learning, pretende ser conhecido. Prova disso é:
O Sucesso está no equilíbrio (Editora Campus/Elsevier).
Em seu “livro bate-papo”, como esse ex-workaholic confesso
define sua obra, ele fala de sucesso, intuição e como
se diferenciar no trabalho sem esquecer da vida pessoal. E, para
isso, fala de sua experiência pessoal no assunto. Em entrevista
à DINHEIRO Online, Wong, sempre pregando a autoconfiança
e o autoconhecimento, dá dicas sobre o que considera fundamental
na busca do equilíbrio e o quanto os diversos conceitos de
sucesso podem depender mais do que vem de fora do que de dentro
de você.
Qual sua motivação de escrever justamente
um livro com esse tema?
Eu trabalho há mais de 25 anos com executivos e
empresários e notei que muitos deles possuíam aparente
sucesso, riqueza material, poder, status, imagem, mas que, no fundo
no fundo, quando se abrem, eles têm uma intranqüilidade,
uma insatisfação, uma ansiedade e, alguns, até
uma angústia de não se sentirem plenamente realizados.
A busca desenfreada pelo sucesso fez a gente esquecer quem
somos?
Exatamente. Eles conhecem tanta coisa: o mercado, o concorrente,
os funcionários, os amigos, mas talvez o conhecimento mais
fundamental para esse equilíbrio é o autoconhecimento
que lhes falta. Eu também passei pelo desequilíbrio.
Só pode falar de desequilíbrio quem passou por ele.
Eu já fui workaholic, já exagerei no auge da minha
carreira e em outros momentos, de maior ou menor desequilíbrio.
Como era sua rotina nessa época?
Eu viajava 70% do meu tempo, trabalhava até altas
horas da noite, no final de semana levava trabalho para casa, tinha
pouco tempo para me cuidar, dar atenção à família
e aos filhos. Sempre que voltava do exterior trazia presentes para
os meus filhos. Em uma das viagens eu chamei os meninos e disse:
“papai trouxe presente para vocês!” e o mais velho
falou só “Valeu, falou!”. Aí eu falei:
“Eu fui correndo, comprei os presentes que sei que você
gosta, quase perco o avião e você me diz: ‘valeu,
pai’?” E ele, na candura, da adolescência, falou:
“Pai, posso falar a verdade? No fundo a gente não quer
o presente, só quer você!”. E aquilo foi um soco
no estômago, um baque. E ele falou: “E sabe o que mais,
pai? Às vezes dá a impressão de que você
nos dá presente para compensar o fato de que você não
pode ficar mais tempo conosco”. Nessa época eu tinha
45 ou 46 anos, estava no auge do sucesso profissional e disse: “Puxa,
o que estou fazendo?”. Então comecei a pensar muita
coisa e relatos desses executivos e colegas e parece que era a mesma
novela, a mesma história se repetindo. E vi que estava todo
mundo desequilibrado.
Existe um capítulo do meu livro que fala do natural e do
normal. A gente tende muito a ser normal, desempenhando papéis.
Precisamos ser mais naturais. Quais são as criaturas mais
alegres, mais felizes, mais realizadas? São as crianças.
Porque elas são mais naturais que normais. Elas dão
mais importância ao ser do que ao estar. Mas eu não
posso ser natural o tempo todo nem devo ser normal o tempo todo,
porque nós vivemos em sociedade, temos de ter equilíbrio
o tempo todo.
E qual seria a forma mais eficiente de o executivo se aproximar,
no cotidiano profissional dele, mais do natural do que do normal?
É ouvir sua voz interna. Ouvir o coração.
Decida mais coisas pelo coração porque ele é
sábio. Se você acredita em reencarnação,
dá para dizer que ela (intuição) é muito
vivida. Ela tem emoção, é a voz da sua alma.
E não só racional. É ser mais pró-ativo
que reativo. E isso faz uma baita diferença.
E como isso é possível no mundo profissional?
O executivo ainda precisa aprender a ouvir sua intuição?
Sem dúvida nenhuma. A gente faz muitas coisas ou
deixamos de fazer pensando no que os outros vão pensar de
nós. E você não arrisca, fica amarrado, fica
prisioneiro de uma situação. E se a sua intuição
for bem calibrada e uma coisa que já desenvolveu, ela dá
idéias incríveis. Eu posso assegurar que as grandes
descobertas do ser humano foram um exercício mais da intuição
do que do intelecto. A informação só tem valor
quando vira conhecimento e o conhecimento só tem valor se
virar experiência. Mas quem cria mesmo é nossa alma,
nossa inteligência, porque a alma é uma força
criadora. É como um computador. Se eu não colocar
algo dentro, ele não vai bolar do nada. Então a gente
tem que libertar essa questão da alma. Isto é, em
vez de ficar cerceando, censurando, reprimindo, é dar asas
à imaginação, é deixá-la livremente
pensar. Infelizmente nossa sociedade tem medo de almas livres.
E qual o papel da religiosidade, da espiritualidade na
carreira do executivo para trazer a intuição de volta?
Você acha saudável para o executivo se aproximar novamente
da espiritualidade?
Eu não só acho importante como fundamental.
Grandes invenções e descobertas foram frutos não
de um exercício mental, mas de quando alma e mente se conectam.
Você pode ver: todo lance novo foi um lampejo da criatividade
quando alma e mente se encontram. Até dá para fazer
coisas muito boas usando só a mente, não vou negar,
mas quanto mais você libertar a alma, mais consegue criar.
A linguagem é uma coisa divina e a única coisa divina
que nós temos, que é a imagem e semelhança
de Deus, é a alma. Agora, se é importante na empresa?
É imprescindível. Infelizmente nós temos muito
na sociedade, não só empresas, mas instituições
religiosas, governos, que em vez de libertar, prendem. Eu até
cito em meu livro que meu pai e minha mãe, que eram orientais,
em vez de nos beijarem, nos abraçarem - uma forma de criar
vínculos ou prender uma pessoa à outra - estavam sempre
me educando. Educar não é prender uma pessoa à
outra, mas fazê-la aprender. E aprender é o oposto
de prender, é soltar, é liberdade, é dar asas
à imaginação, ou desprender.
E você acredita que as estruturas organizacionais
das empresas estão buscando essa nova maneira de interagir
com o funcionário, menos burocratizada?
Elas falam, mas não são todas que fazem.
O ser humano, até pela natureza, controla. Porque isso é
fruto da insegurança. Eu posso controlar você ou seu
corpo. Se eu te amarrar, eu te aprisiono, você está
sob meu controle. Eu posso aprisionar sua mente, através
de dogmas como “você é uma pecadora”, “você
tem de se confessar para mim”, “você vai para
o inferno”, “olha o medo”, “olhas os terroristas”
e coisas como essa. E através de medo e culpa, especialmente,
eu controlo sua mente. Agora, o que eu não posso controlar
é sua alma, que é atemporal, é onipresente,
onisciente. Por isso que as instituições, e não
estou dizendo só a igreja, mas governos têm medo da
alma livre. É uma ameaça. Quem foi perseguido? Todos
esses grandes pensadores foram aprisionados, torturados, descartados
porque eles ousaram enfrentar o status quo, o pensamento vigente.
E no mundo executivo, você tem algum exemplo de empresa
que conseguiu libertar as pessoas para aprender e não apenas
as prendeu?
Algumas empresas do setor de informática, eu não
conheço muito bem, mas a Microsoft, a Apple, o Yahoo!, onde
você precisa de criatividade. Você vê isso na
sociedade: crianças que foram muito controladas, especialmente
meninas, quando elas podem soltar as amarras da casa, dos pais,
da escola, viram pessoas que Deus me livre!, algumas até
malucas. São insaciáveis. Porque não souberam
como dosar. Nos EUA, não se pode beber com 21 anos. Lá,
se você for pego, tem penas pesadas. Então eles não
podem beber mas bebem escondidos. E quando estão na faculdade,
tomam porres, ficam bêbados! Eles não souberam ter
uma liberdade amadurecida, responsável. Na Europa, as pessoas
bebem desde criança, como parte natural do crescimento, do
seu dia-a-dia, e então não acham que precisam beber.
Tudo que é cerceado, reprimido, parece que você quer
mais. É contra-producente essa proibição. Então
você fala: “todo mundo tem que ser padrão, pensar
como todos, ser igual”, não é legal. Você
tem que dar condições para o camarada usar sua imaginação.
Então uma estratégia para libertar as amarras
que essas instituições colocam poderia ver da própria
formação do indivíduo?
Perfeitamente. Inclusive os dez mandamentos dos cristãos
(e eu fui criado na religião católica) tem sete que
começam com a palavra não. “Não matarás”,
“Não darás falso testemunho”... Porque
em vez de falar isso não se coloca no positivo? Em vez de
“não matarás”, “celebrarás
a vida”. Em vez de “não mentirás”,
“pratique a verdade”. Coloquei no final do meu livro
os códigos dos indígenas americanos e, dos vinte códigos,
apenas dois falam não, mas de uma forma muito suave. Nós
fomos infelizmente criados numa sociedade muito repressora, de censura.
E isso não é muito legal. E as crianças nascem
criativas, imaginativas, desinibidas, destemidas, espontâneas
e naturais. E em vez de desenvolvermos essas características
mais e mais, fazemos o oposto. Os pais, até bens intencionados,
em vez de desenvolverem os dons das crianças, acabam refreando
e matando esses dons. E elas vão ficando adultos inibidos,
temerosos, sem imaginação, com pouca criatividade
e muitos complexos. Isso é altamente negativo para o desenvolvimento
de um ser humano, da comunidade, do país e do planeta.
E nesse sentido está o que você chama de Fator
Wow. (no livro, Wong diz que o Fator Wow é “a atitude
que vai gerar a diferença de maneira continuada”, inclusive
a frente dos seus concorrentes). Existe algum exemplo de executivo
que soube usar o fator Wow! e demonstrou toda essa criatividade?
Existem muitos exemplos. As Casas Bahia são um.
Ele ousou, foi mexer com os segmentos C D e E enquanto as outras
estavam concentradas nos A, B e C. E ele hoje tem prestações
equivalentes a um real por mês. Isso é Wow!: ousar,
acreditar e fazer acontecer. A TAM, a Gol e a própria Daslu
são bons exemplos também. Não no que se refere
às questões de contabilidade, mas ela acreditou em
um sonho e tocou para a frente. A TAM acreditou que não são
os próprios funcionários que têm de atender
bem o cliente, o próprio patrão tem de dar o exemplo.
Estar na pista esperando os passageiros chegarem é demonstrar
genuíno interesse, em vez de só interesse. E a Gol
acreditou que você não só tem equipamento bom,
mão de obra boa mas tem de ter preço competitivo.
Não é que abaixando preço você vai perder
dinheiro. Pelo contrário: ele demonstrou que esse diferencial
atrai mais. Passagem aérea é no fundo vender tempo.
Se eu não vender um assento, eu o perdi para sempre. Então
ele fazia mais barato e tinha quase 100% de lotação,
a preço médio menor, mas de qualquer forma não
tomava um baita prejuízo.
E o cultivo desse “fator Wow!”? Porque em situações
ideais seria ótimo passar para as crianças os valores
que permitissem que elas fossem adultos criativos e destemidos,
mas para alguém que tenha a formação convencional,
participando dessas instituições, muitas vezes burocráticas
ao extremo, como fazer?
Para você atingir a excelência, tem de partir
de premissas excelentes. Então você tem de acreditar
que você é excelente. E nós somos excelentes,
ao menos nossa alma é. O corpo e a mente podem até
estar em declínio, mas a alma é o que mais está
progredindo. Se você usa essa premissa, consegue chegar à
excelência porque age e pensa como excelente, pratica e vive
a excelência e tudo isso se torna um círculo virtuoso.
Em vez de fazer mais um relatório, você faz um relatório
Wow!, em vez de escrever mais um livro, escreve um livro Wow!, em
vez de abraçar, fala: vou abraçar Wow!, em vez de
transar, você faz um amor Wow! e vê a diferença
que isso faz na sua vida. Não é [para se preocupar]
se tem condições, dinheiro ou tempo para isso. Só
tem uma questão fundamental: sua atitude. Sua iniciativa
para pensar assim e agir assim. Custa o mesmo dinheiro.
E você fala em seu livro sobre as pessoas sem talento
mas dedicadas e as talentosas mas preguiçosas...
O ideal é ter competência, trabalho e a atitude
certa. Isso tudo junto, mais o fator Wow!, gera um vencedor, sem
dúvida.
Você afirma no livro que o executivo só deve
“embarcar” na empresa se estiver em absoluta consonância
com seus objetivos, ainda que esteja desempregado. Mas é
possível um executivo não obedecer essa regra e ainda
assim viver uma experiência interessante?
Tudo é uma questão não do desafio,
ou do momento, ou do tempo. A questão reside em uma palavra:
a sua atitude. Você vê o copo cheio ou vazio? Você
vê o problema ou a oportunidade? Você se vê como
vítima ou responsável pelo que está acontecendo?
Como headhunter, de que maneira você avaliaria o
currículo de alguém que ficou muito tempo parado?
Todos nós vamos ficar desempregados uma vez na
vida ou mais. Isso fatalmente acontecerá com todos. Se você
aproveitou essa ocasião para se aperfeiçoar e investir
em si próprio, eu digo que esse é o cara que merece
uma oportunidade e que tem a atitude certa. Agora, se não
aproveitou a oportunidade para investir em si, ele é muito
passivo. Eu digo que a diferença entre os vencedores e os
perdedores é que um é reativo e o outro é pró-ativo.
Eu sempre digo: não procure emprego, porque o emprego é
sempre reativo. Ele está lá, pré-determinado,
e eu só posso simplesmente reagir nele. Eu não posso
dizer: eu quero esse emprego mas não quero fazer essa parte,
mas outra, não posso dizer não quero me reportar a
esse cara, quero 20 subordinados... Isso não acontece. O
emprego já está pré-determinado, eu só
posso reagir perante isso, dizer sim e acabou. A palavra de ordem
não é emprego, chama-se empregabilidade. A empregabilidade
é uma palavra pró-ativa porque não depende
do que o mercado tem para oferecer para mim. Depende, sim, do que
eu tenho para oferecer ao mercado. Estudando, adquirindo competências,
abrindo os horizontes, tendo atitudes mais adequadas, vendo a figura
toda e não apenas sendo micro-focado. E todos esses investimentos
o cara pode fazer quando está em um meio-termo de empregos,
entendeu? Esse sim é um camarada que zelou, investiu em si
próprio. Eu tenho até um ditado que uso quando vou
fazer palestras para jovens que é o seguinte: os jovens abusam
dos velhos. O que eu quero dizer com isso é: “jovem,
se você não zelar por si próprio, não
cuidar de si próprio, não estudar, não cuidar
daquela viagem, não adquirir experiências etc e tal,
o velho e a velha que você irá se tornar será
abusado. Infelizmente a grande maioria dos executivos que eu conheço
são seres abusados porque não cuidaram de si lá
para trás e agora estão pagando o preço disso.
E com relação a se fazer percebido após
esse período de preparo? Você tem alguma recomendação
enquanto headhunter?
Eu acho que você tem de encarar a si próprio
como um produto a ser cotado no mercado, mas no bom sentido. O currículo
não é mais um currículo, mas passa a ser um
folheto de um produto chamado fulano não sei do quê.
O networking é preciso, divulgar o produto, me fazer conhecido.
Para isso, eu tenho até que investir na embalagem desse produto:
será que eu estou fisicamente bem? Eu estou gordo, relaxado,
minha pele está ruim? Porque você raramente terá
uma segunda chance para causar uma boa primeira impressão.
E entra também a questão da comunicação?
Sim. Não adianta você ser maravilhoso e o
mercado não saber disso. Não adianta você ter
um belo produto e deixá-lo escondido debaixo do colchão.
Tem que divulgar, ou seja, fazer um pouco de selfmarketing,
mas com classe, com elegância, isso é vital frisar,
para que você possa conquistar esse mercado.
Parafraseando uma frase do livro, a de que os lucros e
os resultados não trazem felicidade mas que é ela
que possibilitará conquistá-los, dá para dizer
que não existe sucesso sem equilíbrio?
Eu não gosto do que é radical: jamais, nunca,
sempre. É claro que tem gente desequilibrada com sucesso,
se eles entenderem sucesso como dinheiro e poder. Outros acham que
sucesso é ter paz interior. Outros, que é ter uma
família maravilhosa. Para cada um o sucesso tem uma determinada
definição. Evidentemente o equilíbrio para
mim é fundamental, porque mais cedo ou mais tarde você
vai se dar conta que o preço que você paga pelo sucesso
que almeja é alto demais.
E o que você pode ter como sucesso pode não
vir de uma crença sua mas do que os outros colocaram em sua
cabeça?
Isso é o pior! O sucesso tem de ser seu, não
o que os outros pensam!
Mas você vê isso acontecer com os executivos?
Muito. Nós temos uma pressão desmedida da
sociedade, da concorrência, da televisão que nos impõe
um modelo, de Hollywood, etc. Porque a pessoa tem de ser magra?
Se ele está gordo mas bem, ótimo! Porque todos têm
de ter o carro último modelo? Isso é ser maria-vai-com-as-outras,
é o modelo carneirinho. Eu acho que cada um tem o seu modelo.
E é por isso que eu digo: o autoconhecimento é o mais
fundamental. Lógico, também dentro de um certo equilíbrio:
o cara não vai ficar lá só tentando o autoconhecimento
sem se preocupar com o resto, isso é até uma fuga.
Até nisso, tem de haver um certo equilíbrio. Você
fala: eu já me conheço, isso me basta para tocar minha
vida e vamos para a frente.
Você diz no livro que as mulheres não ocupam
cargos executivos por saberem do preço. Isso acontece quando
elas chegam ao cargo ou elas antevêem esse preço? Com
que idade elas se dão conta desse preço?
Diziam que elas não chegavam lá por serem
menos qualificadas, ou porque elas sofriam um certo preconceito,
tinham menos oportunidades. Podem até ser razões,
mas, no meu ponto de vista, as mulheres sabiamente não querem
pagar o preço. Elas não querem ficar pagando o preço
de longas horas, jogos políticos, ausência no lar,
não ver os filhos crescendo, puxa-saquismo e perda do equilíbrio
para ganhar sempre mais e mais. Algumas até querem, e é
interessante que houve um estudo que diz que as mulheres que chegam
no topo, infelizmente em vez de usarem seus dotes femininos de coleguismo,
de diálogo, de compaixão, de irmandade, assimilam
aquele modelo masculino porque é o modelo de autoridade que
ela conheceu e elas acham que aquele é um modelo a ser emulado,
assimilado ou copiado. Então elas vêm travestidas de
um estilo masculino que não é legal. Tanto é
que uma pesquisa mostrou que mulheres preferem homens chefes que
mulheres chefes. Algumas mulheres, quando viram chefe, exageram
os trejeitos masculinos, são mais exigentes, mais autoritárias
e mais workaholics que o homem. E até um estudo foi feito
mostrando que, nessas mulheres que chegam à presidência,
o timbre de voz abaixa e fica mais grave, mais masculinizado. Pegue
uma foto de quase todas essas mulheres. Quase todas têm o
cabelo cortado bem curtinho.
Já para os homens você vê que é muito
raro o filho de um homem seguir os passos dos pais. O filho do Akio
Morita, do Matarazzo. O que isso significa? Que eles pensaram: que
vida é essa? Meu pai nunca foi presente! Ele pode ter sido
um baita executivo mas, como ser humano, como pai, não tem
notas tão altas. Inclusive cada geração rejeita
o modelo da geração anterior. Desde a Segunda Guerra,
as pessoas que lutaram, tiveram uma vida muito sacrificada. A seguinte
foi a geração dos babyboomers, nome apropriado porque
esses soldados iam para a frente e não sabiam se iam voltar.
Esses babyboomers, e eu sou um deles, vimos a vida de sacrifícios
de nossos pais e falamos: tudo bem, vamos trabalhar duro como nossos
pais, mas queremos alguma recompensa por isso. E os babyboomers
são uma geração que tiveram muito sucesso material,
porque trabalharam mas receberam os frutos desse trabalho. E os
que os seguiram foram os hippies e, depois os yuppies, que queriam
suas Montblancs, BMWs e status. Depois dos yuppies veio o culto
ao corpo, malhação, bronzeado, corpo todo esculpido
e, agora, a geração dos socialmente conscientes, esses
jovens que querem trabalhar em ONGs, endireitar o ambiente, o que
é muito legal. Então, você vê como é
a natureza humana.
Mas a alternância que você descreveu mostra
posturas cada vez menos radicais. Você acha que a tendência
é as pessoas atinarem para o equilíbrio?
Eu acho que é muito saudável e escrever
esse livro é um alerta para isso. Eu acho que o pessoal está
com uma sede, fome, vontade de atingir o equilíbrio. Porque
se você ficar de pé agora com uma perna para o ar e
outra no chão, você vai se cansar logo. A natureza
humana é muito sábia, pois ela própria procura
o equilíbrio.
Na sua experiência pessoal, além de ter se
dedicado menos horas ao trabalho, o que mais acha que pode ser feito?
Quando eu era um garoto, filho de imigrantes, eu disse:
poxa, eu quero ser alguém na vida, em inglês, “I
wanna be anybody”. Depois, quando eu fui para a faculdade,
eu pensei: “I wanna be somebody”, eu quero ser alguém,
mesmo. Tanto é que hoje sou um nome reconhecido não
só no Brasil, mas mundialmente. Mas depois, eu caí
do cavalo, levei uma bordoada da vida, até a experiência
que relatei com os meus filhos, e eu descobri que na realidade eu
sou um nobody. E essa é uma lição muito impactante
de humildade, que é uma coisa muito sofrida, mas ao mesmo
tempo muito valiosa. E hoje eu sei que eu sou parte de everybody,
e é essa coisa linda, porque nós nos contatamos, e
assim estamos interligados. É bacana, quer dizer, eu hoje
sou parte de um grupo, de uma sociedade, do planeta Terra, do Universo.
O maior volume de água do mundo está nos oceanos
e olha só a natureza como é sábia: ela sabe
que, para ele ser o maior de todos, ele tem de estar no nível
mais baixo de todas as águas do mundo. A moral da história
é que para você ser um homem verdadeiramente grande,
você tem de estar abaixo de todos os homens do mundo, tem
de estar aí para servi-los, como foi o caso de Ghandi, Albert
Einstein, Abraham Lincoln, Thomas Aquino, Jesus e tal.
Eu digo na orelha do livro: leia esse livro com dois ouvidos,
mas não fique só dando importância ao que eu
estou dizendo, e sim como esses fatos ressoam internamente em você.
Porque a minha verdade não é necessariamente a sua
verdade. E essa, só você é que sabe. 
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