"Precisei tomar medidas duras, mas necessárias" POR AMAURI SEGALLA


Poucos executivos têm um desafio tão complicado pela frente quanto o presidente mundial da General Motors, Richard Wagoner. Maior fabricante de carros do planeta e líder do mercado global nos últimos 77 anos, a GM acumulou desde 2005 prejuízos de US$ 70 bilhões. Há três meses, especialistas chegaram a falar até na possibilidade de falência da companhia. Aos 58 anos, Wagoner tem a responsabilidade de salvar a empresa da ruína financeira - e terá de fazer isso no momento mais difícil da economia americana desde a Grande Depressão, no final dos anos 20 e início dos anos 30. Nesta entrevista, o executivo analisa a crise nos Estados Unidos, expõe a estratégia adotada pela GM para recuperar terreno no mercado global e explica por que o carro elétrico Volt e os países emergentes como o Brasil são as principais apostas da empresa para o futuro.
DINHEIRO - Nos últimos dias, a economia americana parece ter entrado em colapso. Várias instituições financeiras quebraram e a própria General Motors enfrenta uma crise sem precedentes. O sr. acha que o cenário nebuloso irá durar quanto tempo?
WAGONER - Certamente, a economia dos Estados Unidos passa por um momento difícil e medidas importantes estão sendo tomadas para enfrentar os desafios que surgiram. A longo prazo, entretanto, acredito que tanto a economia americana quanto a global permanecerão sólidas e saudáveis como um todo. No caso da GM, espero que a demanda global por carros e caminhões continue Entrevista / Richard Wagoner forte, especialmente em mercados emergentes como Rússia e Brasil. De acordo com nossas estimativas, as vendas da indústria global para 2008 estão estimadas em cerca de 70,3 milhões de unidades, contra 70,6 milhões em 2007. Trata-se praticamente do mesmo patamar.
DINHEIRO - O que a GM tem feito para enfrentar o enfraquecimento da economia americana?
WAGONER - Em resposta a esse enfraquecimento e também para amenizar o impacto da alta do preço do petróleo, nós tomamos recentemente algumas medidas duras, porém necessárias, com o objetivo de posicionar melhor a empresa. Para responder à rápida mudança no mix de vendas da indústria automobilística, 11 dos 13 lançamentos nos Estados Unidos e 18 dos 19 lançamentos futuros serão carros ou crossovers. Estamos aumentando a produção em várias de nossas fábricas de carros e encerrando a produção de caminhões em quatro. Anunciamos vários programas de novos produtos importantes. Entre eles, o Chevy Cruze, um novo compacto global, a nova geração do subcompacto Chevy Aveo e um novo motor pequeno de extrema eficiência, apenas para citar alguns.

DINHEIRO - Desde 2005, os prejuízos da GM no mundo totalizaram US$ 70 bilhões. Quais são os seus planos para diminuir as perdas financeiras?
WAGONER - Em julho, colocamos em prática inúmeras iniciativas para alavancar a liquidez da GM em US$ 15 bilhões até o final de 2009 (entre outras medidas, a empresa anunciou a venda de ativos e o corte de compensações financeiras para funcionários). Somadas às ações que foram tomadas nos três últimos anos como parte da estratégia de recuperação na América do Norte, pode-se dizer que conseguimos mais avanços do que muitos acreditavam ser possível. No momento em que a economia dos Estados Unidos iniciar a sua recuperação, a General Motors certamente estará bem posicionada.
DINHEIRO - No dia em que completou 100 anos, a General Motors apresentou oficialmente o carro elétrico Volt. A impressão que se tem é que a GM aposta todas as suas fichas neste automóvel, que funcionaria como uma espécie de símbolo da transformação da empresa. É isso mesmo? Afinal, qual é a importância do Volt para o futuro da GM?
WAGONER - A nossa indústria está começando a se afastar de sua quase total dependência histórica do petróleo. Enquanto isso ocorre, vemos muitas opções novas e animadoras sendo desenvolvidas. O carro elétrico é uma das primeiras nessa lista. É justo dizer que nenhum automóvel conceito desenvolvido durante minha carreira na GM gerou mais entusiasmo do que o Chevy Volt. O Volt funciona como um veículo elétrico tradicional a bateria e tem autonomia de 64 quilômetros apenas com energia elétrica. Caso o motorista necessite ir além dos 64 quilômetros, um pequeno motor é acionado para fornecer a eletricidade para recarregar as baterias, mantendo o veículo em movimento por mais 480 quilômetros. Considerando-se que 75% dos americanos dirigem menos que 64 quilômetros em seu trajeto diário para o trabalho, o Volt pode ter um enorme impacto na dependência que a América tem do petróleo. Logo, fica evidente que o Chevy Volt é muito importante para a GM em particular e para a própria indústria.
DINHEIRO - Quando o Volt começará a ser vendido?
WAGONER - Continuamos focados em nosso objetivo de colocar o Volt nos showrooms das concessionárias Chevrolet até o final de 2010.
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