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Reinhold Stephanes
"Preços dos alimentos podem voltar a subir"
POR DENIZE BACOCCINA

ROBERTO CASTRO/AG. ISTOÉ
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Depois da crise de oferta que dobrou o preço de alguns alimentos no mercado internacional e provocou grandes manifestações em vários países, o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, alerta para a possibilidade de uma nova alta de preços nos próximos anos. “Como há um desequilíbrio mundial entre demanda e oferta, dentro de dois ou três anos pode ter um novo salto de preço”, afirma em entrevista à DINHEIRO. Ele também acha que a mudança de um mundo de oferta de produtos agrícolas para um mundo de demanda vai levar a uma redução do protecionismo nos países desenvolvidos. “Não por Doha, mas pelas necessidades mundiais”, afirma.

DINHEIRO – O Brasil se prepara para uma safra recorde de grãos, mas os produtores reclamam do aumento do preço dos insumos e dizem que isso pode atrapalhar a produtividade. O governo prepara alguma medida para compensar essa alta?
REINHOLD STEPHANES O aumento de custos está restringindo a possibilidade de o produtor ter uma renda maior. Somos o País que mais cresce na produção de excedentes para exportação. Como a demanda por produtos agrícolas é maior do que a oferta, houve alta dos preços. Esta alta foi superior aos efeitos do câmbio e da alta de insumos. O Brasil importa 80% do potássio e quase 60% do fósforo que consome. No caso dos nitrogenados, a médio prazo podemos ser auto-suficientes, se a Petrobras voltar ao mercado. O Brasil tem minas de fósforo. Falta alterar a legislação e resolver os problemas ambientais. Já em potássio, o Brasil só tem uma jazida, que corresponde a no máximo 20% do mercado. Não se pode ser uma agricultura extremamente forte, como é a do Brasil, e ficar dependente desses insumos.

DINHEIRO – Esta é a principal restrição ao crescimento do agronegócio brasileiro?
STEPHANESEu diria que é a restrição mais difícil. Porque as demais dependem de decisões mais fáceis.

DINHEIRO – O governo anunciou o refinanciamento das dívidas agrícolas. Outros refinanciamentos já foram feitos antes. Desta vez o problema será resolvido em definitivo?
STEPHANES A Medida Provisória contempla 80% dos casos. Há casos pontuais nos Estados de Santa Catarina, do Paraná e do Mato Grosso do Sul que já estão sendo avaliados. A dívida rural dos anos 80 e 90 foi debatida exaustivamente por dez meses e tratada com critérios técnicos, ao mesmo tempo que o governo mostrou preocupação em dar garantias a quem produz alimentos neste país.

DINHEIRO – O Brasil é mais ganhador ou perdedor nesta crise de alimentos?
STEPHANES
Acho que o Brasil ganha mais. Se você visitar os 5,6 mil municípios brasileiros, nos 4 mil que mais dependem de agricultura não vai encontrar desemprego. Isso mostra que o ganho de renda da agricultura ativa a economia.

DINHEIRO – A perspectiva para o agronegócio para os próximos anos é boa? As safras continuarão crescendo?
STEPHANESAs perspectivas são muito boas. O preço atual vai se manter, e em alguns produtos como arroz, trigo e feijão deve cair e se estabilizar. O impacto sobre a inflação já foi. Mas, como há um desequilíbrio mundial entre demanda e oferta, em dois ou três anos pode haver um novo salto de preço. Para este período, ainda temos estoques, a não ser que aconteça um problema climático, o que não esperamos.

DINHEIRO – O Brasil ainda está empenhado numa conclusão da Rodada de Doha. Até que ponto Doha é importante para a agricultura brasileira?
STEPHANES A diminuição de barreiras é importante porque podemos colocar nossos produtos em outros mercados, principalmente União Européia e Estados Unidos, a preços maiores e com mais renda aos nossos produtores. Acho que a inversão de um mundo de oferta para um mundo de demanda vai obrigar esses países a repensar as suas posições. Vamos chegar à queda de barreiras e à diminuição de subsídios, não pelo tratado de Doha, mas pelas necessidades mundiais.

DINHEIRO – Apesar das barreiras, o Brasil está exportando etanol para os Estados Unidos.
STEPHANESEstá exportando, mas com sobretaxa extremamente elevada e exportando via Caribe e América Central. Estão nos tirando parte do que poderíamos ganhar.

DINHEIRO – O sr. acha que esta sobretaxa pode cair?
STEPHANES – Vai cair um dia, mas em quanto tempo não sei.

DINHEIRO – Algum dos pré-candidatos à Presidência dos Estados Unidos pode mudar isso?
STEPHANESNão acho. Nada que transpareça nos discursos. A não ser a Hillary Clinton, que está mais preocupada com o custo da energia nos Estados Unidos e com a alta do petróleo e vê o Brasil como um exemplo.

DINHEIRO – Até o ano passado, o Brasil era o salvador do mundo no aquecimento global, com um discurso muito bem recebido lá fora. Isso mudou nos últimos meses, com a crise dos alimentos. O sr. acha que o Brasil tem condição de retomar esse discurso?
STEPHANESO que observo nas últimas conversas com ministros, o último foi o do Japão, é que os países colocaram um pouco o pé no freio. O Japão já tinha decidido entrar em biocombustíveis, e tem que transformar essa decisão em lei. Eles decidiram esperar. O Brasil está um pouco solitário, mas temos o discurso correto.

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