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Todo o poder às mulheres
Por Octávio Costa

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“Se a senadora Hillary Clinton se tornar vitoriosa nos Estados Unidos, alimentará as chances de uma mulher, como Dilma Rousseff, vencer a disputa no Brasil”
Há exatamente um século, sufragetes inglesas saíram às ruas e se acorrentaram à porta de Downing Street 10 para exigir o direito de voto das mulheres. Hoje, Angela Merkel é a primeira-ministra da poderosa Alemanha, Michelle Bachelet é presidente do Chile e Cristina Kirchner acaba de ser empossada na Presidência da Argentina. As mulheres chegaram lá. O exemplo de maior significado histórico está reservado para novembro do ano que vem, quando Hillary Clinton poderá se tornar a presidente dos Estados Unidos. E o Brasil, como fica diante da onda feminina? Chegará o dia em que uma mulher comandará os destinos da Nação? É prematuro apostar as fichas no nome de Dilma Rousseff?

 O futuro a Deus pertence. Mas, a considerar a posição atual das peças do tabuleiro, a ministra da Casa Civil aparece, sem dúvida, como forte candidata à sucessão do presidente Lula em 2010. Ela tem a seu favor uma importante evolução cultural. O espaço das mulheres na cena política brasileira já foi devidamente pavimentado. Os preconceitos chauvinistas pertencem ao passado. Vai longe a eleição pioneira de Roseana Sarney para o governo do Maranhão em 1994. No ano passado, o número de governadoras multiplicou-se por três, com Ana Júlia Carepa, no Pará, Wilma de Faria, no Rio Grande do Norte, e Yeda Crusius, no tradicionalíssimo Rio Grande do Sul. Por sinal, Porto Alegre já tem três pré-candidatas à prefeitura para 2008. Só falta ao Brasil equiparar-se ao Chile e à Argentina e passar a faixa presidencial a uma herdeira legítima das lutas do século passado.

O desempenho de Hillary Clinton nos EUA certamente influenciará o eleitorado tupiniquim. Se a senadora sair vitoriosa, alimentará a chance de uma mulher ser eleita presidente do Brasil. Os partidos políticos sabem disso e o presidente Lula também. Por mais que diga que não tem preferências e admita apoiar um candidato de fora dos quadros do PT, Lula começa a dar claros sinais de simpatia pela candidatura de Dilma Rousseff. Sopra o balão com cuidado para não o inflar antes da hora. De início, a ministra negou que tivesse pretensões políticas, mas, agora, seus movimentos denunciam o projeto palaciano. Justiça seja feita: a opção Dilma não é artificial. Longe disso. A ministra vem tendo sucesso na condução das iniciativas econômicas do governo. À frente dos investimentos do PAC, surpreendeu aos que não conheciam seus dotes de executiva. Inaugurou uma nova época na precificação das obras de infra-estrutura. Com alta dose de ousadia, animou a competição e conseguiu jogar por terra o pedágio de rodovias e as tarifas das novas hidrelétricas.

Dilma tem limitações. Se foi abençoada com faro fino em economia e negócios, falta-lhe o necessário jogo de cintura político. Há, por exemplo, quem atribua à Casa Civil parcela de culpa no fiasco da CPMF. Não custa lembrar que Hillary Clinton também tem seus pontos fracos. Não se iguala ao carismático marido e acaba de perder o apoio da apresentadora Oprah Winfrey. Mas continua favorita. Afinal, nada é impossível para o marketing político. No caso de Dilma, será feito grande esforço para torná-la mais conhecida dos eleitores. Sua imagem passará por retoques. Além da competência, terá de transmitir simpatia. Hoje, ela é considerada sisuda demais para quem pretende se submeter ao escrutínio popular. Seus adversários dentro e fora do PT contam exatamente com isso e lembram que a ministra jamais passou pelo batismo das urnas. Reconhecem, contudo, que Dilma pode surfar na crista da onda feminina.

Vale lembrar, finalmente, que, apesar do apoio de Lula, Dilma Rousseff enfrentará concorrência no próprio partido. Até as pedras sabem que a ministra Marta Suplicy sonha com o Palácio do Planalto. E outro nome vai ganhando corpo, nos bastidores e sem muito alarde. Mineiramente, o ministro Patrus Ananias está colhendo os frutos do programa Bolsa Família. Nas pesquisas de opinião encomendadas pelo PT, ele surge bem à frente de Dilma. Mas não se ilude. Sabe que sua exposição é maior e que o jogo está apenas começando. Patrus tem outro bom motivo para não se afobar: tudo indica que a vez será das mulheres.