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"O jogo agora é com os empresários"
Com a economia em ordem, o presidente do BC prevê que a oferta de capital para empreendedores será abundante e que o crescimento dependerá da capacidade dos brasileiros de criar bons negócios

LEONARDO ATTUCH

Henrique Meirelles
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Na manhã da quinta-feira 25, depois de desembarcar no aeroporto de Guarulhos e enfrentar duas horas de trânsito numa São Paulo encharcada pelas chuvas, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, recebeu a DINHEIRO para uma entrevista exclusiva. Estava cansado, mas trazia boas notícias.

Nos Estados Unidos, ele participou de encontros com investidores e captou uma percepção nova em relação ao Brasil. “O apetite hoje é muito maior do que a quantidade de projetos de negócios”, disse ele.

Isso significa que não faltará capital para novos ou velhos empreendedores. Na visão de Meirelles, os recursos que vêm para o Brasil já não buscam apenas o bom retorno das taxas de juros ou as oportunidades nas bolsas de valores. “O interesse do dinheiro inteligente, que anda na frente, está em empresas emergentes, aquelas que têm potencial para um dia chegar ao mercado de capitais.” Nos Estados Unidos, Meirelles também recebeu o prêmio de “Banqueiro Central do Ano”, concedido pela revista Euromoney. Foi uma distinção importante, mas ele tem ficado mais feliz pelo reconhecimento que vem tendo no Brasil e pelo fato de, cada vez menos, ter de falar sobre questões tediosas como câmbio e juros. No seu modo de enxergar o País, a economia está arrumada e o futuro agora está nas mãos dos empreendedores. Leia, a seguir, sua entrevista.

DINHEIRO – O sr. acaba de chegar dos Estados Unidos. Como o Brasil está sendo percebido?
HENRIQUE MEIRELLES – O que se nota é que o Brasil mudou de patamar. Nos bons momentos da nossa história, nós éramos vistos como um bom destino para multinacionais que tinham presença consolidada no País e para quem aplicava em papéis de renda fixa, em função das taxas de juros. Agora, as coisas estão mudando. Na primeira fase, os investidores começaram a migrar da renda fixa para aplicações de risco, como a bolsa de valores, em decorrência da queda real dos juros. A etapa atual, que é nova e surpreendente pela velocidade em que está chegando, é a do private equity, com investimento direto em participações minoritárias de empresas grandes, médias ou pequenas.

DINHEIRO – E qual é a importância dessa nova etapa?
MEIRELLES – Isso transmite algumas mensagens básicas. Primeiro, estabilidade e previsibilidade. Segundo, aponta uma tendência de crescimento, uma vez que as novas empresas, as start-ups, são as mais vulneráveis à volatilidade econômica. Ao colocar seu dinheiro nessas companhias, o investidor faz uma aposta micro, mas com um forte componente de confiança macro também. Além disso, há um terceiro componente que eu chamo de institucionalidade. O sujeito aposta que será tratado de forma correta pelo acionista controlador.

DINHEIRO – Isso com o Novo Mercado?
MEIRELLES – Não só isso, como a própria evolução institucional do País. Além disso, na medida em que a economia se estabiliza, o acesso ao crédito e a atração de um dia abrir o capital fazem com que as empresas se formalizem. Com isso, cresce também a arrecadação de impostos. É esse o momento atual da economia brasileira.

DINHEIRO – É possível dizer que o Brasil hoje seria o “BRIC” da moda, uma vez que já se falou muito de Rússia, Índia e China?
MEIRELLES – Não há dúvida de que a China e a Índia continuarão a exercer grande atração. Agora, não há dúvida, também, de que o Brasil é a descoberta nova. E que tem algumas vantagens competitivas. Por exemplo, independência do Judiciário, mercado de capitais mais desenvolvido e uma democracia consolidada.

“Risco de bolha no mercado sempre pode existir. O importante é monitorar tudo”

DINHEIRO – Mas e o crescimento econômico? Também se vislumbra um ciclo longo para o País?
MEIRELLES – Bem, o ciclo atual, com 22 trimestres consecutivos de crescimento, já é o mais longo da história recente do País. Mas o que se enxerga agora é um ciclo diferenciado. No passado, a economia crescia gerando distorções que eram a semente da próxima crise. Na década de 50, por exemplo, o País cresceu com grande expansão monetária e aumento da inflação. Depois, veio o endividamento externo, a explosão da dívida pública e a hiperinflação. Agora, o que se observa é um crescimento equilibrado e liderado pelo mercado interno, além de uma relação dívida/PIB cadente, a previsão de inflação dentro da meta por vários anos, contas externas favoráveis e reservas muito elevadas.

DINHEIRO – O sr. acredita na tese da nova classe média?
MEIRELLES – Não há dúvida disso. O crescimento da renda começou pelas classes baixas, em função da queda de inflação, especialmente de alimentos e matérias básicas, como cimento. Depois, veio a expansão do emprego e dos benefícios sociais. Agora, o crescimento já atinge em cheio a classe média, que vem tendo ganhos reais de salário, e também as empresas, pois os lucros nunca foram tão altos.

DINHEIRO – E a percepção interna em relação ao Brasil? É tão positiva quanto lá fora?
MEIRELLES – A diferença é grande. Principalmente porque a visão externa foi muito mais cética durante décadas. Agora, ainda que possa haver um certo entusiasmo exagerado, eles enxergam com mais clareza as mudanças que vivemos. Vou dar um exemplo. Em Miami, fiz uma palestra para gestores de hedge funds. Anos atrás, quando eu falava para essa turma, estavam lá especialistas em renda fixa. Desta vez, só tinha private equity. Não queriam saber de juros e nem mesmo de bolsa. O interesse do dinheiro inteligente e que anda na frente, do chamado smart money, está em empresas emergentes.

DINHEIRO – Mas, falando em bolsa, não há uma certa bolha em todos esses IPOs que estão sendo feitos?
MEIRELLES – Risco de bolha sempre existe. Qualquer ciclo de crescimento prolongado gera risco de bolhas. É inevitável. O importante é que isso seja monitorado pelos investidores e que as autoridades monetárias não sancionem a bolha.

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