Quem vai domar os fundos soberanos? Surge uma nova força nas finanças internacionais. Carteiras de países investem mais de US$ 3 trilhões e causam preocupação global
ANA CLARA COSTA E MILTON GAMEZ
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O mercado financeiro está aberto e ávido por investimentos, mas com algumas ressalvas. Há pouco mais de um mês, o inglês John Stuttard, prefeito honorário da City of London, passou vários dias no Brasil convencendo empresários e autoridades sobre a atratividade do distrito financeiro londrino. Segundo Stuttard, Londres não poderia estar mais receptiva a investimentos externos. Mas o que ele esqueceu de dizer é que nem sempre esse capital é bem-vindo. Prova disso é que, na mesma época, a China Investment Company, que administra um fundo de reservas cambiais chinesas, comprou 4 bilhões de libras em ações no IPO do Blackstone, um grupo britânico de private equity. Em julho, outro fundo estatal chinês (aliado ao Temasek, de Cingapura) levou 5,2% de participação no banco inglês Barclays. A enxurrada de dinheiro asiático causou preocupação na Inglaterra não só pela entrada agressiva de capital estrangeiro em empresas britânicas, mas pelo que está por trás dessa movimentação: os fundos soberanos, a nova força incontrolável das finanças mundiais.
Os fundos soberanos são veículos de investimento criados pelos países para aplicar suas reservas internacionais. Num tempo não muito distante, esses fundos – também conhecidos pela sigla SWF, do inglês Sovereign Wealth Funds – se contentavam com os parcos retornos oferecidos pelos bancos centrais e pelos títulos do Tesouro de países considerados de baixo risco, como os Estados Unidos. Hoje, os governos com excesso de poupança externa buscam aplicações mais rentáveis e de maior risco para suas reservas. Daí a compra de participações em companhias britânicas pelos chineses. Esse fenômeno tem implicações cambiais e monetárias importantes. Os fundos soberanos superaram os fundos de hedge, reunindo um patrimônio superior a US$ 3,1 trilhões, segundo pesquisa divulgada pelo Deutsche Bank Research. Como são pouco transparentes e podem movimentar vários bilhões de dólares entre os países, os SWF são vistos como uma ameaça à estabilidade financeira global, papel até então reservado aos fundos de
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"Dentro de alguns anos o Brasil também terá fundos soberanos. Isso se a relação entre dívida externa e PIB baixar"
FREITAS GOMES, DA CNC |
hedge, donos de US$ 1,4 trilhão, segundo o Deutsche Bank (o Morgan Stanley estima US$ 2 trilhões). “É difícil estimular a transparência de um fundo em nível internacioasiático nal, já que alguns deles pertencem a Estados soberanos que relutam em divulgar detalhes de investimentos”, explica o economista alemão Steffen Kern, responsável pelo estudo.
Outro aspecto interessante deste fenômeno é a origem do dinheiro. Seus maiores donos são os países emergentes, que nas últimas décadas do século passado eram sugadores de poupança dos países desenvolvidos. Se antes a preocupação do FMI era receber o pagamento das dívidas dos emergentes, agora o que ele mais teme é justamente o contrário: que seus fundos estatais cresçam demais. Os superávits comerciais gigantes, na maior parte alimentados pelas exportações de petróleo, transformaram alguns países em poderosos investidores globais. Os maiores fundos soberanos pertencem aos Emirados Árabes e Cingapura (leia quadro). O Abu Dhabi Investment Authority (ADIA), dos Emirados, acumula US$ 875 bilhões em ativos, enquanto o Government of Singapore Investment Corporation (GIC) possui
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"Países têm interesse em cooperar e desenvolver regras que encorajem a transparência, a governança corporativa e a isenção política na gestão dos fundos soberanos"
DALLARA, DO IIF |
US$ 330 bilhões. Em apenas dez anos, o número de SWFs dobrou e soma mais de 40. O fundo chinês que investiu no Blackstone é o sexto maior em número de ativos, com US$ 140 bilhões, e foi criado no início deste ano. Montado em 1976, o maior fundo americano, o Alaska Permanent Reserve Fund, tem “somente” US$ 40 bilhões.
No debate financeiro global, os fundos soberanos ganham cada vez mais destaque. Segundo o Morgan Stanley, eles acumularão US$ 12 trilhões até 2015. Mas será preciso controlá- los? Quem poderia supervisionar os dólares que podem interferir nas taxas de câmbio e nos mercados de renda fixa e variável de diversos países? Essas questões ganharam corpo na semana passada, durante a tradicional reunião de outono do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, em Washington. Uma proposta de controlar esses fundos foi apresentada pelo Institute of International Finance (IIF), espécie de Febraban mundial. “Como se tornaram importantes no sistema financeiro global, os países têm interesse em cooperar e desenvolver regras que encorajem a transparência, a governança corporativa e a isenção política na gestão dos fundos”, afirma Charles Dallara, diretor do IIF. Para o economista, essa iniciativa seria essencial para combater possíveis medidas protecionistas por parte dos países desenvolvidos. “O FMI e o Banco Mundial poderiam desempenhar um papel importante nessa questão”, completa. Caso não haja tal supervisão, o poder monetário desses fundos poderá gerar um descompasso financeiro em nível global. “Eles podem ser potenciais criadores de bolhas”, avalia Caio Magale, economista-chefe da Mauá Investimentos.
ONDE ESTÁ BERNANKE?
Definitivamente, Ben Bernanke não tem nada de Alan Greenspan. Pelo menos em momentos de crise financeira, o ex-presidente do banco central dos Estados Unidos era mais atuante junto aos bancos com problemas do que seu sucessor. Com a quebra do fundo LCTM, em 1998, Greenspan reuniu os grandes bancos e os fez injetar US$ 4 bilhões para evitar uma quebradeira generalizada. Agora, com a crise do subprime, não foi de Bernanke a iniciativa de montar um fundo salva-vidas com recursos do Citibank, do BankofAmerica e do JP Morgan. Foi de Henry Paulson, secretário do Tesouro americano. Na segunda- feira 15, o fundão de US$ 100 bilhões foi anunciado. Será usado para comprar ativos de curto prazo dos fundos que ficaram sem liquidez devido à crise no mercado imobiliário. Bernanke perdeu a chance de ser o pai da criança. Mas, como reduziu os juros recentemente, será convidado para a festa de batismo.
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