Última chamada na telefonia Por Leonardo Attuch
Na última semana, o presidente Lula desembarcou pela sétima vez no
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| “Até 2010, a África ganhará mais 100 milhões de celulares, o que representa quase um Brasil. E, pela primeira vez, empresas nacionais têm a oportunidade de participar da consolidação das telecomunicações” |
continente africano. Depois de passar por Burkina Faso, Congo e África do Sul, ele chegou, na noite da quarta-feira 17, a Angola, um país de língua portuguesa que vem crescendo quase 15% ao ano desde que iniciou a exploração de suas gigantescas reservas de petróleo. Lula sabe do potencial econômico da região. Em entrevista à DINHEIRO, na edição passada, o presidente lembrou que, desde 2002, o comércio exterior entre o Brasil e os países africanos saltou de US$ 2 bilhões para US$ 15 bilhões. A atenção do Itamaraty à região tem sido tão intensa que alguns jornais internacionais já começam a levantar a hipótese de que Brasília estaria “concorrendo” com Pequim pela liderança geopolítica no continente. Se, de um lado, os chineses prometem US$ 20 bilhões para obras em infra-estrutura, o Brasil leva a tecnologia do etanol e ainda acena com o perdão de dívidas contraídas na década de 80.
Há uma área, no entanto, em que o Brasil tem uma vantagem estratégica: as telecomunicações. Estudos internacionais apontam que, até 2010, a África terá mais 100 milhões de clientes em telefonia celular, quase um Brasil inteiro. As grandes operadoras já estimam que 80% do aumento de tráfego nos próximos anos virá dos mercados emergentes – e grande parte disso no continente africano. Ocorre que, na telefonia, a língua, como fator de identidade cultural, pode ser um diferencial decisivo na disputa empresarial, especialmente num momento em que o celular deixa de ser apenas um instrumento de comunicação para se transformar também numa nova mídia, como é hoje a internet. E o português, terceiro idioma mais falado do Ocidente, está presente em países como Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau e Moçambique, entre outros. Eis aí uma grande oportunidade, que já começou a ser percebida em Brasília, mais precisamente no Ministério das Comunicações.
Alguns meses atrás, o ministro Hélio Costa passou a defender a criação de uma plataforma “luso-brasileira” de telecomunicações, que seria fruto da fusão das empresas Oi e Brasil Telecom e contaria ainda com uma participação acionária da Portugal Telecom. O ministro fez as declarações após um encontro com Henrique Granadeiro, presidente mundial da PT, mas a idéia foi rechaçada por alguns sócios da Oi, a antiga Telemar. De lá para cá, a Oi tentou, sem sucesso, realizar uma reestruturação acionária que abriria uma “porta de saída” para seus sócios privados. Essa operação fracassou e, aparentemente, foi abandonada de vez na semana passada. Uma solução natural, agora, seria a venda direta dessas ações à Portugal Telecom, que, no Brasil, controla ainda a Vivo. Do ponto de vista financeiro, esse é um caminho viável por uma razão simples: tudo o que se faz no mercado de capitais depende da história de futuro que é contada aos investidores. A reestruturação da Oi naufragou porque não foi vista como algo que criaria valor. No entanto, a formação “da” empresa – e não “de uma” empresa – de língua portuguesa de telecomunicações seria uma história muito mais atraente. No processo de convergência do setor, o jogo já está em curso. Na língua inglesa, os consolidadores são as americanas Verizon e AT&T, assim como a britânica Vodafone. No mundo hispânico, a guerra se desenvolve entre Telmex e Telefonica. A China, por sua vez, é um mundo à parte. Enquanto isso, países europeus como França e Itália, com idiomas decadentes e sem presença significativa no mundo emergente, têm ficado de fora. Aos países de língua portuguesa ainda resta uma chance. Mas não há tempo a perder. O que falta é apenas deixar de lado pruridos nacionalistas. Afinal, como diria o poeta Fernando Pessoa, “minha pátria é minha língua”.
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