"A bola está com o presidente Lula" O Brasil é como uma Ferrari, que poderia correr mais se os pneus deixassem, diz o economista da Goldman, Sachs ao recomendar ao governo reformas que aumentem a competitividade do setor privado
MILTON GAMEZ
 |
| PAULO LEME |
|
O economista Paulo Leme, 52 anos, tem 25 anos de experiência em crises globais. Começou em 1982, como estagiário do Fundo Monetário Internacional (FMI), na época dos calotes da dívida externa pelos países latino- americanos. De lá para cá, acompanhou de perto todas as grandes turbulências internacionais. Desta vez, acompanha de camarote a crise do mercado imobiliário e de hipotecas nos Estados Unidos. Leme é diretor de pesquisas econômicas da América Latina do banco de investimentos Goldman, Sachs, em Miami. Ele está tranqüilo com os desdobramentos da ressaca americana sobre a economia mundial. “O impacto sobre o crescimento global será muito limitado”, aposta. Mas está impaciente com o ritmo das reformas econômicas no Brasil, que limitam o seu crescimento. “A economia brasileira é como uma Ferrari. Poderia estar correndo a 250 km/h, mas os pneus não deixam”, compara. Se o governo parasse de aumentar seus gastos, investisse nas reformas tributária e previdenciária, entre outras, poderia estancar o crescimento da carga tributária e liberaria mais recursos para o setor privado. “A bola está com o Lula”, diz, em entrevista à DINHEIRO.
DINHEIRO – O Fed reduziu os juros americanos pela primeira vez em quatro anos. Comparado com Alan Greenspan, Ben Bernanke foi mais ousado do que se esperava?
PAULO LEME – A mudança (dos juros) foi preventiva, tomada para facilitar o reordenamento dos mercados financeiros e de crédito. O Greenspan é uma referência muito importante e a comparação entre eles é inevitável. Mas não há dúvida da capacidade intelectual, da formação técnica extremamente sólida e da experiência de Bernanke. São conjunturas diferentes, com pessoas diferentes e mudanças importantes dentro do próprio FOMC (o comitê de política monetária do Fed). Mas não tem muito o que inventar. As receitas e os remédios são os mesmos, o que muda é a combinação. Não surpreende que uma pessoa preparada e inteligente como o Bernanke vá acertar com o tempo.
DINHEIRO – O que de fato está acontecendo com a economia dos Estados Unidos?
LEME – O consumo privado está arrefecendo. Há um desequilíbrio externo causado pelo excesso de despesas das famílias em relação à sua renda. A economia está se ajustando. O crédito diminuiu, ficou mais caro e as pessoas vão reduzir o consumo. O déficit em transações correntes deve cair e o resultado será uma diminuição do crescimento econômico.
 |
| Bernanke reduziu os juros para evitar a recessão. Provavelmente conseguirá |
DINHEIRO – No fundo, o Fed não está tentando evitar uma recessão? LEME – O Fed não reduziu os juros porque a economia já está em recessão. Provavelmente, a recessão poderá ser evitada. Para isso é que existe medicamento e medicina preventiva. Não se recomenda cortisona a quem está saudável. Mas é tolice não usar um bom remédio quando necessário. A utilização responsável de um instrumento de política monetária evita um agravamento de uma situação que pode ser remediada. Se o mercado continuasse a desalavancar de forma desordenada e precipitada, como ocorreu em agosto, poderia levar a uma destruição muito maior da atividade de crédito, muito maior do que o necessário. Aí, sim, poderia haver recessão.
DINHEIRO – Quais são as previsões da Goldman, Sachs para o crescimento do PIB dos EUA?
LEME – O ciclo de queda do preço de imóveis e o reordenamento do mercado imobiliário americano ainda não foram totalmente digeridos. Isso acontecerá nos próximos três trimestres. As estimativas são de crescimento de 2% em 2007. Para 2008, rebaixamos recentemente a previsão de 2,4% para 1,8%. O crescimento anualizado nos próximos três trimestres deve ficar entre 1% e 1,5%, com uma aceleração na segunda metade de 2008. Comparando- se com os mesmos trimestres do ano anterior e excluindo-se os fatores sazonais, há crescimento.
DINHEIRO – Quais serão os impactos da desaceleração americana na economia brasileira?
LEME – Os resultados são bastante animadores, independentemente do que ocorrer nos EUA e na economia mundial. O tamanho relativo da economia americana diminuiu e a desaceleração global será muito pequena. Reduzimos a projeção de crescimento da economia mundial de 4,5% para 4,2% em 2008. Este é um nível acima da média histórica. É como um avião 747 que perdeu um pouco de força no motor americano, mas ainda tem outras três turbinas aceleradas, que são a Europa, a Ásia e os emergentes. Economias como a da China vão continuar crescendo próximo a 11%. A Índia, 8%. O Brasil, 4,5%. Os emergentes como um todo, quase 8%. Com esse nível de crescimento, a escassez de matérias-primas como petróleo, metais e alimentos é tão grande que a estrutura de custo marginal é que vai determinar o preço, e não a demanda. As exportações do Brasil não vão arrefecer em volume e o País poderá inclusive exportar a maiores preços. Há outra questão. Como o Brasil é extremamente fechado ao comércio internacional, a economia está menos exposta aos ciclos no Exterior do que países mais abertos, como o México. No Brasil, o que determina o crescimento é a demanda doméstica e a produtividade. A bola está com o presidente Lula. Cabe a Brasília a decisão de implementar reformas, medidas que possam aumentar a produtividade e o aumento da taxa de crescimento.
DINHEIRO – Quer dizer que o fato de a economia brasileira ser muito fechada foi uma coisa boa nesse momento de crise?
LEME – Essa é a ironia. É uma das poucas ocasiões, talvez seja a única, em que ser quase autárquico tem benefício. Não recomendaria essa política para os próximos governos. É a mesma coisa que dizer que os arquitetos vão construir casas com portas de um metro e meio de altura. Vamos fumar e beber e não crescer para ter o benefício de não precisar agachar para entrar nas casas?
PÁGINAS :: 1 | 2 | Próxima >> |