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Ele vai reinar no Real?
Gabriel Jaramillo, presidente do Santander no Brasil, está próximo de assumir também as operações do ABN Amro no País. Mas, embora os espanhóis já cantem vitória, a oferta ainda não foi aceita - e tudo pode mudar

Por Milton Gamez

FOTO: BIÔ BARREIRA/AG. ISTOÉ
JARAMILLO: com aquisição, ativos do Santander passariam a R$ 278 bilhões
O maior ameaçado pode ser o Itaú

Mudanças no ranking

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Dois eventos dramáticos tomaram conta da sala de concertos "de doelen", em Roterdã, na quinta-feira 20. De manhã, durante longas quatro horas e quinze minutos, os diretores do ABN Amro Bank detalharam a 578 acionistas as duas bilionárias propostas de aquisição, recebidas do inglês Barclays e de um consórcio formado pelo escocês Royal Bank of Scotland, o belga Fortis e o espanhol Santander. O destino dos 16 altos executivos do banco holandês ali presentes - dentre eles o brasileiro Marcus Vinícius Pratini de Moraes, membro do Supervisory Board - será decidido nas próximas semanas pelos senhores e senhoras da platéia. Terminada a assembléia extraordinária do ABN Amro, os girassóis foram retirados e o palco foi preparado para receber, à noite, o bailarino espanhol Jesús Herrera. A música e a dança flamenca soaram como um prenúncio do resultado: a vitória do consórcio, que jogaria no colo do Santander o Banco Real (comprado pelo ABN Amro em 1998) e mudaria o cenário da competição no mercado bancário brasileiro.

Os espanhóis já consideram o negócio como favas contadas. Durante a visita oficial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Espanha, na semana passada, o presidente do Santander, Emilio Botín, adiantou que o consórcio levará a melhor na disputa com o Barclays. Somente uma grande tragédia, como "um tsunami", poderia impedir esse desfecho, disse Don Emilio a Lula na manhã do sábado 15, em Madri, no Palácio de Moncloa, em reunião com empresários e o primeiro-ministro José Luís Rodríguez Zapatero. Estavam presentes o ministro Miguel Jorge - que antes de assumir a pasta do Desenvolvimento, Comércio e Indústria trabalhava no Santander - e o presidente do banco espanhol no Brasil, Gabriel Jaramillo. Não é comum que grandes negócios deste tipo, que também envolve dois outros grandes sócios, sejam anunciados por um deles antes da assinatura do último acionista vendedor. O ABN Amro tem o controle pulverizado em centenas de acionistas, inclusive poderosos fundos de hedge, e os prazos para que aceitem ou não as propostas vencem em 4 de outubro (caso do Barclays) e 5 de outubro (consórcio). Cantar vitória antes disso pode ser prematuro. Porém, tudo indica que o trio de bancos tem mais munição para vencer.

FÁBIO BARBOSA, PRESIDENTE DO BANCO REAL E DA FEBRABAN: "Sou apenas um empregado. Aguardo a decisão dos acionistas"

O consórcio conseguiu derrubar na quinta-feira a óbvia preferência que o board do ABN Amro tem pela proposta de fusão com o Barclays. De sua cadeira, em frente à de Pratini de Moraes, o presidente Rijkman Groenick não deixou dúvidas de sua escolha pessoal: "Este banco deve perder sua identidade? A fusão com outra instituição seria melhor no longo prazo. Particularmente, esta é minha posição". Fatiar o banco nunca foi uma estratégia e, portanto, a diretoria não poderia endossar a proposta do consórcio, argumentou. Porém, como esta é financeiramente melhor, Groenick e seus colegas optaram pela neutralidade e não recomendaram aos acionistas nenhuma das duas ofertas. Ambas foram dissecadas pelo diretor financeiro Huilbert Boumeester. Quando chegou a vez de mostrar o resumo da proposta do consórcio, acabou a luz e a transparência sumiu das grandes telas do palco. "Estamos sob muita pressão", afirmou, com um sorriso nervoso. Há bons motivos para isso. Todos ou quase todos podem perder seus empregos caso o banco, fundado em 1824 pelo rei Willem I, seja desmembrado. Se o dinheiro fala mais alto que a tradição, o fim do ABN Amro pode ser a opção dos acionistas.

Em valores correntes, a proposta do consórcio é pagar 37,88 euros por ação do banco holandês, acima dos 32,63 oferecidos pelos ingleses. Além de o valor superar em 16,1% a oferta do Barclays, a oferta tem um componente adicional: seria paga quase totalmente em dinheiro, enquanto o concorrente pretende fazer troca de ações. Se levarem a melhor, o RBS, o Fortis e o Santander desembolsarão quase US$ 100 bilhões (R$ 200 bilhões) e fatiarão o ABN Amro. Nesse cenário, o Banco Real seria incorporado pelo Santander e criaria um novo gigante financeiro. Combinado com o Real, o Santander poderia passar da sétima para a terceira posição no ranking de bancos no Brasil, à frente do Itaú. Um verdadeiro tsunami na competição local, que ameaça os atuais líderes e poderá desencadear uma nova corrida pela compra de outros bancos pelo Bradesco e pelo Itaú. "É uma fusão entre duas empresas grandes e vai ter volume. A concorrência é importante porque sempre que tem concorrência a gente se preocupa mais um pouco", disse à DINHEIRO Márcio Cypriano, presidente do Bradesco, na tarde da quinta-feira, após uma apresentação a analistas de mercado em Brasília.

"O maior ameaçado pode ser o itaú"

O Real se encaixa perfeitamente na estratégia do Santander de crescer rapidamente no mercado brasileiro. Com 1.980 agências e postos de atendimento e 13,8 milhões de clientes (o dobro do Santander), é um banco que contribui com 20% da rentabilidade global da matriz holandesa. Bem estruturado e organizado, é complementar ao Santander. Quando adquiriu o Banespa, o espanhol ganhou uma rede bem robusta no Estado de São Paulo. Das 2.026 unidades atuais, 1.400 são paulistas. Com o Real, os canais de distribuição passam a ter mais força em todo o Brasil, com uma distribuição de agências, correspondentes e postos de atendimento bancários mais uniforme. "Para o Santander, essa aquisição é importante para virar um dos grandes bancos no Brasil", afirma Catarina Pedrosa, analista-chefe do Banif Investment Bank. Nos últimos meses, a possibilidade de compra pelo Santander azedou o clima corporativo e muitos funcionários, temendo as eventuais demissões, buscaram empregos em outras instituições. O presidente do Real, Fábio Barbosa, que também preside a Febraban e tem seu emprego ameaçado, evita comentar o assunto. "Sou apenas um empregado. Aguardo a decisão dos acionistas", tem dito aos interlocutores.

Os grandes bancos nacionais não ficarão parados. Itaú e Bradesco podem voltar as baterias para o Unibanco. A casa dos Moreira Salles é sempre vista como "a noiva cobiçada", para usar uma expressão do falecido banqueiro Pedro Conde, cujo BCN foi sócio do Barclays no Brasil e acabou sendo comprado pelo Bradesco. A noiva, assim, ficará bem mais cara - isso, se estiver à venda, o que o banqueiro Pedro Moreira Salles não admite.

Com reportagem de Márcio Kroehn e Rodrigo Rangel