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"Diretor de empresa não precisa de colchão social"
Fundador da Gelre, a maior agência de empregos do País, diz que a produtividade do trabalho é baixa no Brasil e defende uma profunda reforma da CLT, mantendo benefícios apenas para os mais pobres

ROSENILDO GOMES FERREIRA

VICENTEGRECCO
Johannes Wiegerinck
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O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva comete os equívocos dos antecessores quando o assunto é geração de emprego. A afirmação é de Johannes Wiegerinck, 80 anos, fundador do Grupo Gelre, a maior agência de mão-de-obra temporária e efetiva do País.

Desde 1963, sua empresa já conseguiu emprego para cerca de 4,5 milhões de pessoas. E é do alto dessa experiência que ele diz que governo, Congresso e empresários estão usando os mecanismos errados para atacar a questão. Segundo ele, o ideal seria reduzir, ou até proibir, as horas extras e flexibilizar as leis trabalhistas.

“Não tem sentido, em um país como o Brasil, que o diretor da fábrica tenha os mesmos benefícios de um operário”, critica Wiegerinck, que comanda uma corporação que fatura R$ 400 milhões e cresce na faixa de 15% ao ano. Nessa entrevista à DINHEIRO, o empresário também dá dicas para quem está em busca de um lugar no mercado de trabalho: “É preciso apostar na vocação, sem se deixar contaminar por modismos. Estudar continuamente e cultivar uma boa rede de relacionamento”, ensina.

DINHEIRO – A Organização Internacional do Trabalho (OIT) coloca o Brasil na 65ª posição no ranking de produtividade. Estamos atrás de Bósnia, Irã, Chile e Argentina. O que fazer para mudar esse quadro?
JOHANNES WIEGERINCK – De fato, o País está perdendo competitividade. Enquanto a produtividade da China triplicou, nos últimos 20 anos, o Brasil estagnou. Creio que dois fatores foram fundamentais para isso. Um deles é que alocamos muita gente para realizar tarefas inúteis, frutos do excesso de burocracia. E isso acontece tanto no governo quanto na iniciativa privada. Outro agravante é a questão gerencial. Há 30 anos, Peter Drucker (guru da área de administração) disse que não existiam países subdesenvolvidos, mas subadministrados. E o Brasil é um exemplo disso. Faltam-nos lideranças voltadas para o que realmente interessa que é o desenvolvimento do País.

DINHEIRO – Existe algum modelo no qual o Brasil poderia se espelhar, para superar esse desafio?
WIEGERINCK – A Coréia do Sul, a Nova Zelândia e a Irlanda são bons exemplos. Especialmente esse último que, em apenas 20 anos, saiu de um estado de penúria para a condição de tigre econômico. Hoje, a renda per capita do irlandês é 26% maior que a média da União Européia. Na década de 80 esse indicador era 25% menor que a média da região.

VICENTEGRECCO
“O Primeiro Emprego de Lula fracassou porque o mercado quer gente experiente”

DINHEIRO – E o que nós, brasileiros, precisamos fazer para dar um salto semelhante?
WIEGERINCK – Analisando a questão pelo ponto de vista trabalhista, acho que a primeira medida deveria ser a flexibilização da CLT. Precisamos fazer com que a legislação proteja apenas quem efetivamente precisa de proteção. Não tem sentido em um país como o Brasil igualarmos, em matéria de verbas rescisórias, um diretor de fábrica a um operário. O primeiro tem instrução suficiente para se recolocar rapidamente no mercado. Além disso, ele é capaz de formar uma poupança e sabe se defender muito bem.

DINHEIRO – O sr. está propondo, então, um teto salarial para que as pessoas sejam atendidas pela CLT?
WIEGERINCK – É isso mesmo. Podemos definir como patamar o valor equivalente a dez salários mínimos (R$ 3,8 mil). Acima disso, as pessoas teriam direito a usufruir de apenas alguns dispositivos da legislação trabalhista.

DINHEIRO – Mas isso não criaria dois tipos de cidadãos: o de primeiro e o de segunda classe, quando a Constituição diz que somos todos iguais? WIEGERINCK – Sou partidário da tese de que temos de tratar de forma diferente as pessoas diferentes. Um diretor de banco não precisa de um colchão social. A CLT não foi feita para executivos e acionistas de empresas. Só que, por equívocos do Judiciário, ampliou-se a cobertura para todos os níveis.

DINHEIRO – O sr. está dizendo que a boa-fé e o altruísmo dos legisladores e do Judiciário prejudica quem eles dizem defender?
WIEGERINCK – Altruísmo com o dinheiro alheio é fácil. O que tem sido feito no Brasil é jogar o problema para a frente.

DINHEIRO – Muitos atores da cena política e econômica falam em mudança, mas ninguém quer perder privilégios. Como resolver isso?
WIEGERINCK – A Espanha conseguiu construir um consenso em torno na flexibilização das leis trabalhistas que possibilitaram reduzir de quase 25% para 8% a taxa de desemprego. Trata- se de um patamar menor que o verificado na França. E olha que o espanhol é um povo bastante passional. Acho que os políticos, os empresários e os sindicalistas poderiam apostar na experimentação. Ou seja, em leis com data de validade. Deu certo, continua.

DINHEIRO – Mas isso, de certa forma, foi feito no caso dos programas de incentivo ao recrutamento dos jovens e mesmo assim eles não deslancharam. WIEGERINCK – O Projeto Primeiro Emprego, criado na gestão do presidente Lula, foi um fracasso total por vários motivos. O principal deles é a realidade do mercado. Como existe um excedente de mão-de-obra, as empresas preferem trabalhar com pessoas que têm experiência.

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