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Trevas no mercado
Perdas bilionárias no mundo todo revelam o lado negro dos fundos de Hedge

  Mercado financeiro
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A única certeza que se tem na vida é a morte. No mercado financeiro não é diferente. Nos momentos de crise global, ela aparece implacável e causa estragos patrimoniais em quem ousa estar no seu caminho. Seu poder é tamanho que abala o equilíbrio emocional dos que tentam fugir em desespero. Mas quem tem coragem de encará-la? Estamos falando da morte da rentabilidade, que em agosto assustou investidores de todos os portes, em todas as partes. Os índices das bolsas de valores despencaram quando o ser da capa preta dirigiu sua foice ao mercado financeiro. Seus movimentos ceifaram fortunas nos fundos de hedge, protagonistas internacionais de uma indústria financeira estimada em US$ 2 trilhões. E as perdas ao redor do globo podem ter ultrapassado os US$ 300 bilhões. O reflexo da morte foi visto de perto por acionistas, gestores e administradores de fundos de investimento. O espectro que ninguém queria admitir – o estouro da bolha do mercado imobiliário dos EUA – reduziu a pó ganhos milionários dos últimos meses. Nem mesmo as estrelas do mercado financeiro brasileiro, distante do epicentro da crise, escaparam.

Os fundos da morte investiram em títulos podres do mercado imobiliário dos EUA. Azar deles

A real dimensão do estrago ainda não é conhecida, muito menos quais são os prejuízos escondidos nos fundos dos grandes bancos de investimento. Mas alguns nomes famosos surgiram para pagar a conta do funeral. Os bilionários norte-americanos Eli Broad e Maurice “Hank” Greenberg enterraram US$ 1 bilhão no fundo Global Equity Opportunities Fund, do Goldman Sachs. O próprio banco tirou US$ 2 bilhões do seu caixa para socorrer o fundo e evitar a corrida dos outros investidores. A injeção de dinheiro novo ocorreu em 13 de agosto, quando US$ 1,08 bilhão – um terço do patrimônio do fundo – evaporou de um dia para outro. Se não tivesse pedido ajuda aos dois notórios clientes e colocado a mão no próprio bolso, o Goldman Sachs e seus investidores teriam perdido muito mais. Não estavam sozinhos. O Bear Sterns ofereceu socorro de US$ 3,2 bilhões a um de seus próprios fundos com problemas.

Em terras brasileiras, grandes bancos como Santander e Real ABN Amro também viram a cara da morte. Foram acompanhados de nomes badalados, como Armínio Fraga, da Gávea Investimentos; Daniel Dantas, do Banco Opportunity; Luiz Fernando Figueiredo, da Mauá Investimentos; e Luiz Carlos Mendonça de Barros, da Quest Investimentos. Juntos, os quatro gestores viram seus fundos perder R$ 338,8 milhões em duas semanas. Com agressivas estratégias em seus fundos multimercado, que aplicam em diversos ativos ao mesmo tempo, os gestores não puderam evitar os prejuízos quando os preços das ações despencaram lá fora e arrastaram junto as cotações na Bovespa. As dez maiores perdas de patrimônio oscilaram de R$ 70 milhões a R$ 270 milhões (veja quadro). As cotas de dois fundos de Dantas, o Opportunity Midi FI Multimercado e o Midi 90 FI Multimercado, despencaram 23,55% e 23,13%, respectivamente, até a sexta-feira 17, um dia após a quinta-feira negra. Naquele dia, o Ibovespa chegou a cair 8,82% e fechou em queda de 2,58%. Em poucos dias, o índice escorregou de 58 mil para 48 mil pontos.

Crise das bolsas de valores queima fortuna estimada em US$ 300 bilhões

O pânico nos mercados foi tamanho que na semana seguinte os gestores brasileiros não iam dormir sem antes consultar a abertura dos mercados na Ásia. Esse hábito, adquirido pela primeira vez em 1997, na forte crise do Sudeste Asiático, voltou com força. Os conselheiros do Gávea Golf Club, no Rio de Janeiro, comentaram que o sócio golfista Armínio Fraga deixou uma reunião às nove horas da noite da segunda-feira 20 e voltou para o escritório. O expresidente do Banco Central, discípulo do megainvestidor George Soros, não quis dar entrevista sobre o assunto. Ele tem razão de perder o humor: em duas semanas, os dois fundos multimercado da Gávea encolheram R$ 88,15 milhões. Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do BC, gastou horas no telefone atendendo clientes preocupados com a crise das bolsas. Os fundos da Mauá perderam R$ 111,7 milhões.

MERCADO FINANCEIRO
COMO SOBREVIVER AO SUICÍDIO ECONÔMICO NOS MOMENTOS DE CRISE?

Toda calma é pouca quando as ações derretem mundo afora

Acrise financeira gera prejuízos proporcionais ao desespero do investidor, principalmente naqueles que correm para resgatar suas cotas em fundos ou para vender suas ações. É nos momentos de estresse do mercado que o comportamento de quem investe deve ser o mais equilibrado possível. Quem se apavora com a queda das cotações nas bolsas vende barato e acaba realizando o prejuízo que até então era apenas contábil. Os afoitos sempre compram dólar mais caro e vendem com prejuízo mais tarde. Quando ocorre o “efeito manada” nas bolsas, muita gente vende ações ao mesmo tempo e os preços despencam. É quando os “patos” do mercado, que foram atraídos pela exuberância dos últimos cinco anos, saem em disparada e fazem a alegria dos investidores que têm sangue frio e paciência para garimpar novas oportunidades nos momentos sombrios do mercado.

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