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Reestatizar a Vale? Para quê?
Por Octávio Costa

“É inacreditável, mas o PT uniu-se aos nanicos para discutir uma idéia tão absurda quanto extemporânea: retomar o controle da Vale”

O PT é um partido esquizofrênico. Assumiu o poder máximo do País há cinco anos, com a eleição do ex-metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva para presidente da República. E tem entre seus filiados cinco governadores e a segunda maior bancada da Câmara dos Deputados. Mesmo assim, faz enorme esforço para se equiparar ao inexpressivo PSTU e à desconhecida Radiola FM, de Brasília. Por mais surpreendente que pareça, o PT uniu-se aos dois nanicos e a ONGs de porte semelhante na promoção, entre 1º e 7 de setembro, de um plebiscito popular pela “anulação da privatização da Vale do Rio Doce”. Para a adesão oficial à absurda iniciativa, faltava apenas a aprovação do 3º Congresso Nacional do partido, neste fim de semana.

Mesmo sem conhecer a decisão dos 900 militantes petistas reunidos em São Paulo, é espantoso que o partido do presidente Lula ainda pense em rever o leilão realizado em 1997, no governo FHC. A discussão extemporânea baseia-se, por sinal, num grande equívoco. Afirma que a empresa foi vendida por R$ 3,1 bilhões, quando o que se leiloou por R$ 3,3 bilhões foi o controle acionário. A Vale como um todo foi avaliada em R$ 12,4 bilhões. Não custa lembrar também que o grupo vencedor, liderado pela CSN, de Benjamin Steinbruch, pagou um ágio de 19,99%. E mais significativo ainda: o grupo Votorantim, de Antônio Ermírio de Moraes, desistiu do negócio quando as ações atingiram R$ 32 (o preço mínimo era de R$ 26,67). Se Antônio Ermírio, cuja família investe em mineração há décadas, considerou o preço salgado, o que leva os aguerridos companheiros a acreditar que a Vale foi subavaliada?

Um dos motivos, sem dúvida, é o forte ranço ideológico que faz os petistas perderem as estribeiras diante da simples menção à palavra privatização. O preconceito gera confusão. Dizem os mentores do exótico plebiscito – aprovado em encontros regionais do PT – que, no primeiro ano depois do leilão, o lucro da Vale subiu para R$ 10 bilhões. Afirmam também que o valor da empresa era superior a R$ 40 bilhões. Esses números, na verdade, servem de chumbo grosso contra os que defendem a devolução da Vale ao Estado.

A rápida evolução do lucro e do patrimônio vem comprovar, acima de tudo, que o Estado é um mau gestor. Em 1997, a produção média anual da Vale era de 35 milhões de toneladas. Hoje, a produção bate um recorde histórico: 300 milhões de toneladas/ano. A Vale tinha 11 mil empregados em 1997, atualmente é responsável por 56 mil empregos diretos. Entre 2001 e 2006, a mineradora investiu US$ 44, 6 bilhões contra um total de US$ 24,2 bilhões nos 54 anos anteriores.

O valor de mercado, obviamente, pulou de US$ 9,2 bilhões em 2001 para US$ 103 bilhões em 2006.

Os militantes do PT não enxergam um palmo além do nariz: longe da burocracia estatal e sem sofrer loteamento político, a Vale progrediu muito. O que deixa no ar a seguinte dúvida: o que aconteceria com a Petrobras se fosse privatizada? Quais seriam seus resultados? A estatal do petróleo, nesse exato instante, não quer se desfazer de um lote da Bacia de Santos, que arrematou em 1999. O prazo da concessão venceu e a Agência Nacional do Petróleo (ANP) pretende leiloá-lo. A Petrobras alega que fez uma descoberta no local e pede a prorrogação. Fica claro que a estatal foi lenta e teme, agora, que grupos privados explorem a área. A Petrobras vai bem mas não existe no mundo uma petrolífera que dê prejuízo. Pelo exemplo da Vale, é possível imaginar qual seria seu desempenho se fosse privada. Mas isso é tabu no País.

Pensando bem, há certa coerência na cegueira do PT. Os dirigentes que aceitam passivamente o plebiscito contra o leilão da Vale são os mesmos que vêem no indiciamento dos mensaleiros pelo STF uma conspiração das elites e da mídia. Ao falar sobre o histórico julgamento, o presidente do PT, Ricardo Berzoini, saiu-se com uma de suas pérolas: “O PT é igual massa de pão. Quanto mais batem, mais ele cresce.” Berzoini também não enxerga nada. Confundiu o PT com um bando de maus políticos que, desde a semana passada, são réus em processo penal. Felizmente, muita gente no PT discorda do atrapalhado presidente da legenda. E recorre a uma expressão francesa para explicar a permanência dele no cargo: faute de mieux, ou seja, na falta de algo melhor... Felizmente, também, alguns dirigentes do PT acham o plebiscito da Vale uma bobagem. O PT é um partido forte e popular. Deve se comportar à altura.