O PREÇO DO CAOS AÉREO
O custo do apagão O caos nos aeroportos brasileiros coloca em xeque a capacidade de o país gerir sua própria aviação civil
Por Daniel Leb Sasaki
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| AEROPORTO DE CONGONHAS, QUARTA-FEIRA, 17 HORAS: O retrato de um sistema à beira da paralisia |
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Dois acidentes, mais de 350 vidas perdidas, prejuízos monstruosos, negócios interrompidos, transtornos de toda forma. Há várias maneiras de dimensionar os imensos danos da crise aérea que vem assolando o País desde outubro do ano passado, quando o jato Legacy da ExcelAire colidiu com um Boeing da Gol. Qualquer cálculo que se faça, no entanto, parece ser ainda preliminar. Para o mundo dos negócios, particularmente os que envolvem o setor da aviação civil, a imensa incógnita em que se transformou voar no Brasil nos últimos meses pode continuar provocando conseqüências drásticas por mais algum tempo. De vários lugares do mundo partem reações que, em um cenário mais radical, ameaçam até mesmo isolar o País em plena era da globalização. Após o acidente com o Airbus da TAM, há duas semanas, e um recente apagão no Cindacta 4 – que deixou toda a área da Amazônia sem controle aéreo por várias horas e obrigou vôos internacionais a retornarem a seu ponto de partida –, entidades internacionais passaram a pedir uma intervenção no sistema de controle de tráfego aéreo brasileiro e até mesmo o rebaixamento do Brasil à condição de país sem as mínimas possibilidades de navegação aérea segura. Isso, num caso extremo, poderia fazer com que companhias aéreas estrangeiras deixassem de voar para cá e que as brasileiras fossem impedidas de pousar no Exterior.
A proposta de intervenção partiu da influente Federação Internacional dos Controladores de Tráfego Aéreo (Ifacta), com 50 mil membros em todo o mundo. A Ifacta lembrou que até mesmo a Suíça aceitou apoio internacional após a colisão entre dois aviões nos céus do país, em 2003. O alerta da Ifacta já teria chegado à Organização Internacional de Aviação Civil (Icao), que reúne 30 mil empresas ligadas à aviação em 130 países e que teria poderes para rebaixar o Brasil à “Categoria II”, gerando severas restrições ao tráfego aéreo no País. Foi o suficiente para causar indignação no brigadeiro José Carlos Pereira, o presidente da Infraero: “A Ifacta não tem autoridade legal nem técnica para fazer uma pressão dessa. E mesmo que tivesse, seria uma intromissão.” Segundo Pereira, a Icao apenas faz “recomendações que o país cumpre ou não se quiser.”
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| PRÉDIO DA TAM EXPRESS: companhias estrangeiras já acendem o sinal de alerta |
O cenário de incerteza e precariedade, prejudica desde o comércio internacional ao intercâmbio entre multinacionais e seus braços no País. Grupos estrangeiros podem repensar a viabilidade de manter filiais por aqui. Até mesmo a Embraer, nossa modelar fabricante de aeronaves, caso a Icao tome uma posição mais drástica, teria a homologação questionada e poderia enfrentar dificuldades em exportar seus aparelhos. Para quem acha que esse é um cenário distante e improvável, é bom atentar aos comentários de representantes de empresas como a norte-americana American Airlines, que colocou os vôos para o Brasil sob alerta. “Ao primeiro sinal de problemas na comunicação (no espaço aéreo brasileiro), a orientação é o retorno da aeronave ao ponto de partida”, disse Nancy Parisi, supervisora de vôos internacionais da American no aeroporto JFK, em Nova York, ao jornal O Globo. A American mantém vôos diários entre São Paulo e Dallas, Nova York e Miami, e Rio de Janeiro e Nova York. Segundo Parisi, passageiros americanos estão bem cientes da crise do sistema aéreo no Brasil e telefonam diariamente para os escritórios da companhia, questionando se é seguro embarcar. Exagero deles? Nem um pouco. O apagão no Cindacta-4, que durou cerca de três horas, fez com que os controladores a desviassem de suas rotas 20 vôos que vinham dos Estados Unidos. Muitos tiveram que retornar às cidades de origem ou descer em escalas imprevistas e fora de mão. Essas companhias evitam falar à imprensa, até para evitar polêmicas desnecessárias, mas já estão revendo normas de vôo e comparando os vôos no Brasil aos feitos sobre a África, considerada a região mais insegura do mundo.
| R$ 35 bilhões é quanto o turismo de negócios movimenta por ano no Brasil |
Com isso, o turismo nacional já o primeiro setor a sofrer. Só o segmento de negócios, com seus 80 milhões de participantes, movimenta mais de R$ 35 bilhões. “Não há como nos prepararmos para o impacto”, avisa Orlando de Souza, presidente do São Paulo Convention & Visitors Bureau. “A enxurrada de lama que aconteceu em Congonhas é simbólica. Só espero que o turismo não seja tragado por essa lama”. No fim das contas, não é demais lembrar: o que não faltou ao governo foram avisos. A Confederação Nacional das Indústrias (CNI), por exemplo, divulgou duas notas públicas – uma em 14 de novembro de 2006 e a outra em 29 de março deste ano –, solicitando que as autoridades dessem atenção aos problemas do setor aéreo antes que o pior acontecesse. “Prevíamos o impacto da crise nas empresas, na distribuição de produtos, no turismo, a desorganização na agenda de negócios dos executivos, o aumento de custos”, afirma Armando Monteiro Neto, presidente da CNI. “Mas nunca houve resposta”. Bom, agora pode ser tarde.
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