O PREÇO DO CAOS AÉREO
A conta que vem de Congonhas Quanto o encolhimento do aeroporto paulistano vai custar às companhias aéreas
Por Adriana Mattos
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| BALCÃO DA TAM: parentes das vítimas levam flores aos funcionários |
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Avião parado é dinheiro pelo ralo, diz um ditado do setor de aviação civil. Com a crise aérea instaurada no País, e a saraivada de vôos cancelados, TAM e Gol já sentiram na pele o que é perder parte de sua principal fonte de receita no País, o Aeroporto de Congonhas. Ele é responsável por cerca de 1/3 das vendas de bilhetes das duas companhias aéreas, que juntas dominam quase 90% do tráfego pelos céus brasileiros - e, na sextafeira 20, o Conac (Conselho Nacional de Aviação Civil) determinou o fim das conexões em Congonhas e reduziu o número de vôos no local, com o objetivo de reduzir em 30% o tráfego no aeroporto. A TAM já informou analistas de mercado que a receita doméstica do terceiro trimestre deve cair. Ela está, neste momento, redefinindo a sua malha de rotas, que deve ficar pronta no começo da semana que vem. A Gol está fazendo o mesmo. Agora, o foco de parte da linha de frente das empresas é ver o tamanho do buraco que o encolhimento de Congonhas provoca e, principalmente, o que fazer com ele. Só com um novo plano de frota eficiente que as empresas podem tentar minimizar ou reverter as possíveis perdas. E tentar acalmar os acionistas. Desde a catástrofe aérea que matou quase 200 pessoas no dia 17, a TAM já perdeu R$ 2,3 bilhões em valor de mercado. Na Gol, evaporaram- se R$ 1,5 bilhão.
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| CONFUSÃO EM CUMBICA: desvio de vôos causa superlotação |
TAM e Gol já estão se mexendo para absorver as possíveis perdas. As duas empresas podem promover reajustes nas passagens aéreas nas próximas semanas, embora não confirmem essa intenção. "Isso não está em discussão", diz Paulo Castello Branco, diretor de relações institucionais da TAM. Tem mais: na quarta-feira, em reunião com Dilma Rousseff, ministra da Casa Civil, as aéreas teriam pedido para que as concorrentes BRA e OceanAir não tenham as solicitações de ampliação de rotas aprovadas neste ano, acentuando o duopólio. Mais uma vez, TAM e Gol negam a informação. Uma vitória, porém, pode ser contabilizada pelas duas. No processo de redução do número de vôos em Congonhas (como determinou o governo na semana passada) companhias e governo decidiram manter no aeroporto rotas extremamente rentáveis, que atendem Rio de Janeiro, Brasília, Curitiba, Porto Alegre, Minas Gerais e interior de São Paulo. Ficou de fora Fortaleza. Tudo foi amarrado com antecedência: na véspera da reunião com o governo, TAM e Gol encontraram-se em Brasília para acertar uma proposta comum, segundo apurou DINHEIRO.
GOL |
TAM |
| R$ 1,5 bilhão foi a perda no valor de mercado da companhia desde 17 de junho |
R$ 2,3 bilhões foi o valor total da desvalorização das ações da companhia após o acidente |
O esforço em conter a ânsia por mudanças em Congonhas pode ser entendida com uma análise mais detalhada dos números das companhias aéreas. A TAM vendeu R$ 1,038 bilhão em bilhetes no mercado interno de janeiro a março, de uma receita bruta total de mais de R$ 1,9 bilhão. Cerca de 30% disso vem de Congonhas. São R$ 311 milhões no trimestre, ou pouco mais de R$ 100 milhões por mês em passagens vendidas a partir do aeroporto paulista. Com os 104 vôos cancelados na terça e quarta-feira, a perda já atingiu quase R$ 4 milhões. Isso porque, com uma média de 160 pessoas por aeronave, e tíquete médio em R$ 240, a perda chega a R$ 3,9 milhões com esses cancelamentos. Isso precisa ser computado como prejuízo, porque, para evitar mais tumulto (e atender a turma que foi impedida de embarcar) a TAM deixou de emitir novos bilhetes. Além dos 100 vôos cancelados em dois dias da semana passada, a Gol já cancelou outros 12 até 30 de julho e novos podem sofrer mudanças. Cada vôo da Gol leva, em média 169 pessoas. Apenas nos cancelamentos, a perda soma R$ 3,2 milhões, levando-se em conta o tíquete médio de R$ 169. Na Gol, da receita total de R$ 1,041 bilhão de janeiro a março, os analistas estimam que 85% vêm do mercado doméstico, ou seja, R$ 850 milhões. As passagens emitidas a partir de Congonhas abocanham 35% disso, ou quase R$ 300 milhões. "Não há dúvida de que teremos um impacto nas contas das empresas. A questão é saber a extensão do baque", diz Gustavo Moreira, analista do UBS Pactual. Noves fora, há as perdas intangíveis. Quem enfrentou o calvário do saguão de Congonhas, esperando pelo vôo que não veio, foi parar na TV, engordando a lista infindável de críticas às companhias. Na semana passada, dezenas de familiares das vítimas do vôo 3054 deitaram no chão do Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, em protesto contra o caos aéreo. É o tipo de choque negativo na imagem que não aparece nas contas. Mas exigiu reações inimagináveis das aéreas. Para se ter uma idéia, em nota oficial, a Gol pediu aos seus clientes que não voassem pela empresa na semana passada, adiando a viagem para após a segunda-feira 30. Era uma forma de reduzir filas e evitar desgastes ainda maiores à companhia. Resta saber até quando uma companhia resiste pedindo para que os clientes não comprem seus próprios produtos e serviços. |