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O novo gerente da crise
O ministério da defesa troca de comandante na primeira mudança na cúpula do setor aéreo

Por Octávio Costa

NELSON JOBIM: promessa de centralizar o comando e priorizar a segurança
Oito dias depois da tragédia com o jato da TAM em Congonhas, o presidente Lula finalmente tomou a decisão que se esperava dele há pelo menos dez meses. Fez a primeira mudança da cúpula do setor aéreo e demitiu o ministro da Defesa, Waldir Pires, na manhã da quarta-feira 25. Pôs em seu lugar o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, Nelson Jobim. Mas, pelo que se viu na cerimônia de posse, o presidente fez a troca com grande constrangimento. Chegou a agredir os fatos quando disse que o ministro pediu demissão: "Quando você me comunicou sua decisão de sair, compreendi e aceitei." Na verdade, Pires, de 80 anos, fora exonerado em audiência oficial pela manhã. Na noite anterior, após muita insistência, Nelson Jobim aceitara o convite para ocupar a pasta da Defesa. Apesar do visível desconforto, Lula reconheceu que o Brasil "vive uma crise no setor aéreo". Afirmou também que o conjunto de instituições responsáveis pela aviação civil necessita de "uma única cabeça pensante". E ressaltou que Jobim vai assumir o Ministério "com todas as forças para fazer todas as mudanças que precisar fazer". Com carta branca para agir, Jobim foi enfático ao fazer o diagnóstico da crise: "Estamos com problema de comando, e isso (comando) agora vai ter."

Jobim preferiu não responsabilizar seu antecessor. Mas, se houve falta de comando, explica-se pelo perfil de Waldir Pires, que foi consultor geral da República do governo João Goulart e enfrentou forte rejeição dos comandantes militares. Com Nelson Jobim, tudo promete ser diferente. O ex-ministro de Justiça do governo Fernando Henrique Cardoso e ex-presidente do STF tem pulso forte. Peemedebista histórico, ele destacou-se na Constituinte e mostrou autoridade nos cargos que ocupou. Sua atuação foi vital quando o STF aprovou a cobrança de contribuição previdenciária dos inativos. No episódio, caiu nas graças do presidente Lula, que, desde então, sonhou em tê-lo no Ministério. Nos meios militares, apesar das restrições ao Ministério da Defesa, Jobim teve boa acolhida. Diz-se que ele tem estatura política e apetite pelo poder. E, para além da crise aérea, será capaz de reequipar as Forças Armadas. Jobim já mostrou a que veio. Em menos de 24 horas, deu duas entrevistas apontando o rumo que vai tomar. Ele advertiu que, daqui para a frente, "quem manda é o ministro". E explicou que os diversos órgãos do setor aéreo "foram criados para dar resultados". Sem resultados, sua existência não se justifica. Ressaltou também que sua prioridade absoluta será a segurança nos vôos. "Temos de fazer uma opção entre o conforto ou a segurança. Se o preço da segurança forem mais filas, a fila será mantida."

Por mais autoridade que tenha, Jobim só aceitou assumir o cargo depois de receber sinal verde de sua mulher, Adriane Senna. A curtíssimo prazo, tem de remover dois outros obstáculos: o presidente da Infraero, brigadeiro José Carlos Ferreira, e a diretoria da Anac, pela incompetência na gestão dos aeroportos brasileiros. Quanto a José Carlos, procura-se apenas o substituto. Em relação à Anac, os diretores da agência reguladora têm mandato fixo e não podem ser demitidos. Tudo indica, porém, que Jobim pretende encontrar uma brecha jurídica que lhe permita afastá-los e acabar de vez com a partidarização da agência. "A Anac foi mal formulada na origem. Mas o governo não pode ficar engessado", atacou o novo ministro, que admite até mesmo a extinção do órgão. Jobim não deu prazo para o fim da crise aérea, mas confia no seu bastão. Surgiu, afinal, uma voz de comando.