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O PREÇO DO CAOS AÉREO
Um preço alto demais
AS 200 VÍTIMAS DO ACIDENTE DA TAM SÃO O DRAMÁTICO SALDO DA OMISSÃO E DA INCOMPETÊNCIA NA GESTÃO DA CRISE AÉREA

Por Octávio Costa Fotografado para DINHEIRO por Claudio Gatti

DRAMA ANUNCIADO: acidente foi o maior da história da aviação nacional

Quem acompanhou a crise do setor aéreo nos últimos dez meses sabia que algo de muito grave podia acontecer a qualquer momento. Aconteceu no início da noite chuvosa da terça-feira 17, no Aeroporto de Congonhas, quando o Airbus A320 da TAM, que fazia o vôo JJ 3054, de Porto Alegre a São Paulo, deslizou em alta velocidade pela pista principal, deu uma guinada para esquerda e explodiu ao se chocar com um prédio da TAM Express. Mais de 200 pessoas podem ter morrido no desastre, entre passageiros, tripulação e funcionários da TAM que estavam no edifício.

Foi o maior acidente aéreo já ocorrido no País e também o maior da aviação mundial nos últimos cinco anos. A tragédia estava anunciada e veio completar um ciclo macabro da aviação brasileira, que perdeu o rumo desde o acidente com o jato da Gol em setembro do ano passado. Procura-se agora saber por que o Airbus não conseguiu parar. As hipóteses vão de falha mecânica a problemas de drenagem na pista principal de Congonhas, além de erro do piloto ao deixar escapar o tempo exato de uma arremetida. Entretanto, qualquer que tenha sido a causa, está claro que voar nos céus do Brasil tornou-se uma atividade de altíssimo risco e que o setor aéreo vive uma crise de gestão sem precedentes. Quem devia pilotar a crise sumiu há muito tempo. E o preço, alto demais, que se paga pela incompetência são mais de 350 vítimas em dois acidentes de grande porte em menos de um ano, algo raro nos anais da aviação em qualquer ponto do mundo. Traumatizados, milhões de brasileiros passaram a temer os aeroportos. Antes, nas exaustivas jornadas de espera, eles não sabiam se conseguiriam embarcar. Hoje, não sabem se chegarão vivos ao seu destino.

DESTROÇOS: HAVIA 186 PESSOAS A BORDO

Nas horas e dias que se seguiram à tragédia de Congonhas, foi impressionante, quase estarrecedora, a incapacidade das autoridades. Em meio ao jogo de empurra dos burocratas estatais, a sopa de letras dos órgãos responsáveis pelo transporte aéreo – Infraero, Anac, Conac, Decea, Cenipa, etc – mostrou que não passa de uma barafunda inútil. Na teoria, mais de dez órgãos federais deveriam zelar pela aviação comercial. Mas o que se viu, após o desastre, foi a total falta de iniciativa e de coragem para assumir encargos. “Podemos dizer que a máquina governamental é muito competente. Ela é criada para não fazer nada e não faz nada mesmo”, constatou o ex-ministro Ozires Silva, um dos fundadores da Embraer. Para ele, “a crise aérea é uma questão de gestão e o governo perdeu a capacidade de prestar qualquer serviço direto ao cidadão”.

Sem dúvida, boa parte do caos aéreo poderia ter sido evitada com doses de gestão eficiente e aplicação correta dos recursos. Nas estimativas dos especialistas, seriam necessários R$ 12 bilhões para pôr os aeroportos em ordem, com sistemas ideais de controle de tráfego. Nos últimos anos, a Infraero dispôs de quase R$ 4 bilhões, mas preocupou mais em embelezar os terminais de passageiros do que com a qualidade das pistas. Em vez de investir em equipamentos modernos de segurança, que permitam, por exemplo, que os aviões pousem em Cumbica sob forte neblina, preferiu inaugurar salas de cinema. Quanto à Anac, a agência reguladora que substituiu o DAC, basta dizer que nos meios aeronáuticos é chamada de “anarc”. Para o procurador da República, Márcio Schusterschitz, não há o que discutir sobre a tragédia do vôo 3054: “O Ministério Público atribui as responsabilidades do acidente a quem tem o Aeroporto de Congonhas nas mãos, ou seja, a Anac e a Infraero.”

Sabia-se, há muito tempo, que o Aeroporto de Congonhas, com uma pista principal de apenas 1.900 metros, não oferecia as condições ideais para o pouso de jatos de grangrande porte, como o Airbus A320. A própria Infraero reconhecia também que o aeroporto central de São Paulo operava muito além de seus limites, com 48 vôos por hora e 18 milhões de passageiros/ano. Nada, porém, se fez para corrigir as distorções. E os especialistas são unânimes em afirmar que, mesmo com problemas mecânicos (o reverso estaria travado), o jato da TAM não teria se espatifado na pista de quatro mil metros de Cumbica. Explica-se, portanto, o silêncio das principais autoridades. A omissão dos gestores é uma marca dessa tragédia, como vinha sendo durante todo o período da crise aérea. Nos últimos meses, nada de efetivo foi feito para solucionar os problemas dos controladores de vôo e muito menos para evitar os atrasos e a prática abusiva de overbooking pelas empresas aéreas. Afora declarações infelizes sobre o suplício dos passageiros, o governo preferiu lavar as mãos. Depois do acidente de terçafeira, o silêncio permaneceu. As autoridades ficaram enclausuradas no Palácio do Planalto em intermináveis reuniões com o presidente Lula. Desapareceram o comandante da Aeronáutica, Juniti Saito, e o ministro da Defesa, Waldir Pires. O presidente da Anac, Milton Zuanazzi, que estava em Lisboa numa boca-livre da TAP, voltou ao País, mas ficou calado. O presidente da Infraero, brigadeiro José Carlos Pereira, só deu entrevista na quinta-feira. Todos se comportaram como o oficial da Aeronáutica que, na noite do desastre, levantou-se no meio de uma reunião em Congonhas, com o argumento de que a Aeronáutica não tinha nada a ver com o assunto.

O presidente Lula, através dos assessores, limitou- se, no primeiro momento, a um protocolar pedido por “apurações rápidas e rigorosas”. Só falou oficialmente sobre a tragédia em rede nacional de TV no horário nobre da sexta-feira 20, 72 horas depois do acidente. Pressionado pelos fatos, anunciou mudanças nos órgãos que deveriam administrar o setor aéreo. Esvaziou as atribuições da Anac, ampliando os poderes do antes inativo Conselho Nacional de Aviação Civil (Conac), que passa a responder diretamente à Presidência da República. Tomou medidas também para reduzir os riscos em Congonhas. A freqüência de vôos será bem menor, a tonelagem máxima dos aviões cairá de 64 para 55 toneladas e a operação de jatos executivos deve ser transferida para o Campo de Marte. Em Brasília, também dava-se como certo o corte de cabeças, entre elas, as de Waldir Pires e José Carlos Pereira, além das de diretores da Anac.

Acredita o Palácio do Planalto que, com o pacote de medidas, conseguirá restabelecer a ordem e a segurança nos aeroportos do País. É cedo para avaliar, mas, partindo de autoridades até então perplexas e inoperantes, qualquer iniciativa é bem-vinda. Apesar disso, a imagem que fica do Palácio do Planalto é o gesto obsceno do assessor da Presidência Marco Aurélio Garcia, ao saber pela TV, na noite da quinta-feira 19, que o jato da TAM tinha problemas no reverso. Ele extravasou com um auxiliar, pois a informação, a seu ver, eliminava a responsabilidade do governo. Por falta de sensibilidade, Garcia também merecia desembarcar do governo. Em respeito aos 200 mortos de Congonhas.