O declínio do império americano? Por Octávio Costa
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| A moeda americana padece com a maior desvalorização da história. Enquanto o presidente George W. Bush sofre pelo fiasco no Iraque |
Desde a Segunda Guerra Mundial, o mundo se habituou à crescente hegemonia dos Estados Unidos. Diante de uma Europa combalida, que ressurgia dos escombros, os americanos não tiveram dificuldades para se impor em todas as frentes, da econômica à cultural. Depararam-se, é certo, com a União Soviética durante a chamada Guerra Fria. Mas, enquanto os russos davam as cartas no Leste Europeu, os Estados Unidos ampliaram seu domínio no Ocidente. Após a Queda do Muro de Berlim, em 1989, passaram a reinar sozinhos. Agora, porém, o império americano começa a dar sinais de fadiga. E já há quem use um termo mais forte para definir o momento: decadência.
Um dos sinais que apontam para a crise de Tio Sam é a desvalorização do dólar. De moeda forte que chegou a servir de padrão internacional, o dólar vive hoje dias de descrédito e depreciação. Na semana passada, chegou ao fundo do poço, ao atingir a pior cotação em relação ao euro desde a criação da moeda da União Européia, em 1º de janeiro de 1999. Paga-se hoje US$ 1,37 para comprar um euro. Em relação à libra esterlina, a situação também é periclitante. São necessários US$ 2,02 para comprar a moeda inglesa, na pior cotação desde 1981. E, como sabemos, até mesmo o real está tirando sua casquinha. A tal ponto que o Banco Central desistiu de remar contra a maré do mercado. E o dólar é cotado a apenas R$ 1,85, para felicidade dos importadores e dos turistas brasileiros que passam as férias em Nova York e Miami.
Alguns analistas consideram que a desconfiança é passageira. Estaria ligada à crise de empresas de crédito hipotecário americanas, que assumiram posições muito arriscadas. Teme-se que esses problemas se propaguem ao conjunto do setor bancário dos Estados Unidos. Na terça-feira 17, o banco de investimento Bear Stearns comunicou que dois de seus fundos de hedge lastreados em hipotecas de alto risco (chamadas subprime) viraram pó. O patrimônio de um deles chegara a US$ 1,5 bilhão em 2006. Surgem rumores também sobre dificuldades no banco Lehman Brothers, cujas ações caíram 3% num único pregão. Esses fatos, evidentemente, têm efeito negativo no mercado imobiliário como um todo, afetando uma das tradicionais alavancas da economia americana. Apesar disso, o presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, mantém-se otimista. Aposta que o país deve crescer 2,5% este ano e até 2,75% em 2008. “A economia pode ganhar um pouco de força no ano que vem”, prevê Bernanke.
Pode ser. Mas, além das dificuldades conjunturais, a economia dos EUA convive com problemas crônicos. O mais famoso é o déficit no balanço de transações correntes, hoje em US$ 862,3 bilhões. Os americanos exportam US$ 1 trilhão, mas importam US$ 1,86 trilhão.
Esse descompasso seria terrível para um país que não emitisse dólares. Mas de qualquer forma mostra um ponto vulnerável de Tio Sam. Mais ainda quando se compara a evolução da economia americana ao desempenho extraordinário da China, que no segundo trimestre deste ano cresceu 11,2%. De 1999 a 2006, as exportações da China cresceram 396%. Também a Europa demonstra força, com crescimento médio acima de 3%. Mesmo países como Portugal e Espanha estão na crista da onda.
A sensação de decadência dos EUA, porém, vai muito além dos números frios da economia. O gigante do Norte também sofre desgastes no front político. Enquanto novas lideranças despontam na Europa, a exemplo do novo presidente da França, Nicolas Sarkozy, os Estados Unidos assistem ao fim melancólico do segundo mandato de George W. Bush. Poucas vezes um presidente americano viveu seus últimos meses na Casa Branca num ambiente tão desolador. Marcado pelo fiasco na guerra do Iraque, Bush hoje é apontado pelas pesquisas de opinião em seu próprio país como um dos piores presidentes americanos de todos os tempos. Sob aplausos do auditório, o apresentador David Letterman provoca gargalhadas diariamente, em seu programa na TV, ao comparar as gafes de Bush aos discursos históricos de Kennedy e Eisenhower. Os EUA se divertem. Mas deve ser muito duro para o orgulho dos americanos saber que seu presidente é motivo de piada. Bush também seria um símbolo da decadência? |