O lado doce dos radicais O panfletário pode ser um chato, mas ele ajuda a derrubar as verdades absolutas
Por Joaquim Castanheira
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| CHÁVEZ: será que não há uma dose de razão em suas críticas ao etanol? |
A voz de Hugo Chávez voltou a ecoar. E mais uma vez o alvo de seus ataques foi o impressionante advento do etanol como combustível. Para o presidente venezuelano a expansão das áreas plantadas de cana-de-açúcar e de milho, destinadas à produção do combustível, roubam espaço das terras utilizadas para o cultivo de alimentos. Assim, a sede dos países desenvolvidos por um combustível mais barato e menos poluente aumentaria a fome das populações das nações subdesenvolvidas. Chávez é um panfletário – e essa é uma das críticas mais freqüentes que seus adversários fazem a ele. Panfletários são sujeitos barulhentos, exagerados, cuja estridência e voluptuosidade deixam pouca margem para discussão. Na maioria das vezes, sua histeria irrita, o que faz com que não sejam levados a sério ou sejam tachados de radicais.
Pois, com todo o incômodo que provocam, eles possuem um papel importante na sociedade. Em geral, os panfletários colocam o dedo na ferida, apontam problemas que, sem eles, não ganhariam o destaque que merecem. Seus berros suscitam discussões posteriores, essas sim sérias e profundas.
Chávez foi o primeiro a alertar para o risco de falta de alimentos devido à corrida pelo etanol. Por trás de sua preocupação com o estômago dos pobres há o temor de que o combustível possa reduzir a dependência do mundo pelo petróleo, principal fonte de riqueza da Venezuela e dos recursos que sustentam seu regime político. Fidel Castro uniu-se a ele. Foram chamados de alarmistas e vanguardistas do atraso. Mas, depois deles, dois economistas americanos, C. Ford Runge e Benjamin Senauer, escreveram um artigo na conceituada revista Foreign Affair sobre o tema. No texto, ambos alertam que existe mesmo a possibilidade de que uma corrida à cana-de-açúcar possa inibir a produção de alimentos. Faltam estudos técnicos e científicos que comprovem essa tese, mas o assunto é suficientemente importante para merecer um debate mais amplo e cuidadoso, e provocá-lo é o mérito dos panfletários.
Entre os efeitos da ação desses agitadores está o desmonte de unanimidades, que, como definiu brilhantemente Nelson Rodrigues, são burras por princípio.
Anos atrás, jovens de diversas partes do mundo se postavam diante de reuniões anuais do FMI e do World Economic Forum para protestar contra os “efeitos perversos da globalização”. Eram tempos em que o capitalismo global era vendido como um modelo definitivo, sem contra-indicações. Dessa forma, aqueles garotos imberbes e barulhentos eram tachados de radicais ou de rebeldes sem causa. Até que um vencedor do Prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz, escreveu Os Malefícios da Globalização, um de seus melhores livros, no qual discorre sobre a negativa herança social e econômica que aquele sistema político estava deixando, sobretudo para os países subdesenvolvidos.Na obra, o insuspeito economista americano mostra como a globalização estava acirrando as desigualdades sociais em grande parte do planeta. Stiglitz, inclusive, faz questão de citar e analisar os protestos dos jovens nos primeiros capítulos de seu livro.
Os panfletos ajudam também a mudar comportamentos de governos e empresas. Eles escancaram assuntos tratados timidamente em outras formas de comunicação. Lembram-se do filme Super Size Me? Nele, o diretor Morgan Spurlock faz um libelo contra os pouco saudáveis hábitos alimentares dos americanos. Seu alvo é o McDonald’s, maior rede de fast-food do mundo. Sua premissa é improvável, ou até idiota: durante um mês ele se alimenta única e exclusivamente nos restaurantes da rede. Os indicadores de sua saúde, é claro, se deterioram. Pode-se acusar Spurlock de manipulador e sectário, de que faz ilações exageradas. Mas seu filme foi decisivo para que as autoridades e os consumidores americanos se mobilizassem contra os excessos na alimentação, principalmente de crianças. Até o próprio McDonald’s incluiu itens mais leves em seu cardápio e passou a apoiar iniciativas voltadas para o esporte e o bem-estar. Enfim, apesar de todo componente que existe em qualquer manifestação panfletária, ela possui um mérito inquestionável: leva as pessoas a discutir qualquer assunto, mesmo que ele pareça uma verdade perene. |