PIB Brasil
O mundo freia e o Brasil acelera Num ano em que a economia global dá seus primeiros sinais de cansaço, o País deve atingir um crescimento na casa dos 5%
Por Lana Pinheiro
DEPOIS DE UM LONGO PERÍODO PISANDO FUNDO NO ACELERADOR, a economia mundial começa a reduzir sua velocidade. Os primeiros a tocar no freio foram os Estados Unidos. Depois de um decepcionante resultado de 0,6% do PIB no primeiro trimestre, a economia americana não deve evoluir mais do que 2,3% no ano, reduzindo o crescimento do PIB global de 4% para 3,3%. Mas o movimento não foi isolado. Os países emergentes que registraram taxas de crescimento acima dos 7% nos últimos anos devem ficar nos 6,7%. A boa notícia é: o Brasil viu a luz dos freios se acender, mas não deu a mínima. Contrariando a tese de que o País sempre segue a mesma tendência da economia mundial, pisou ainda mais fundo no acelerador e prepara-se para chegar aos 5% neste ano. Um descolamento inédito na história brasileira. Indústria, comércio, serviço e agronegócios crescerão acima dos 4% e, impulsionadas por uma onda de otimismo, as empresas projetam crescimento de dois dígitos e investem para atender à demanda. "A expansão do crédito, puxa o comércio, que puxa a indústria, que gera emprego e renda", diz Roberto Padovani, estrategista do Banco WestLB. "As projeções apontavam crescimento, mas a velocidade está superando as expectativas."
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| CONSUMO Crédito farto e a Selic em 12%, a menor da história do País, impulsionam a economia |
A inflação estável, a confiança do consumidor em alta e os juros mais baixos da história do País com a Selic em 12%, definida na reunião do Comitê de Política Monetária da quarta-feira 6, animam a indústria e os consumidores. O crédito farto também explica parte desse boom de investimento que inunda o Brasil. Quer um bom termômetro para medir a aceleração da indústria? Veja o setor automotivo. Nunca se vendeu tanto carro no Brasil quanto em 2007. Segundo a Anfavea, associação que reúne as montadoras, o mercado cresceu 24% no primeiro quadrimestre e ultrapassará, com folga, a marca de dois milhões de unidades no fim do ano. O ritmo pegou de surpresa até as montadoras. A Volkswagen voltou atrás no plano de demissões em São Bernardo do Campo (SP) e a Fiat precisou transferir a fabricação do Siena para a Argentina mesmo depois de ter contratado 2,9 mil pessoas e iniciado o inédito terceiro turno na unidade de Betim (MG). "Estamos no melhor ano desde que a Fiat chegou ao Brasil, em 1976", afirmou Lélio Ramos, diretor comercial do grupo. A reboque, a indústria de autopeças investirá US$ 2 bilhões nos próximos 15 meses para atender aos pedidos. "O mercado interno está muito forte", admite Gábor Deák, presidente da Delphi, fabricante de sistemas automotivos. "Nos últimos dois anos a empresa superou US$ 1 bilhão em novos negócios e em 2007 devemos crescer de 10% a 15%", explica o executivo que acabou de inaugurar mais uma fábrica no País e contratou mil funcionários nos primeiros meses do ano. Se a indústria de quatro rodas comemora, a de duas rodas
solta rojões. O setor crescerá 20%. "Em 2007, o mercado baterá 1,5 milhão de motos", antecipa Antonio Romanoski, presidente da Sundown Motos, empresa que viu suas vendas crescerem 45,1% em 2007 e sua participação de mercado saltar de 0,3% para 5% em três anos. Romanoski, agora, prepara a duplicação da fábrica de Manaus para perto de 250 mil motos ao custo de R$ 25 milhões.
Para os próximos anos, a expectativa não é de arrefecimento. Alguns setores intensificaram a atuação no mercado de capitais para financiar as ondas de expansão que estão por vir. Só a Tecnisa, que captou R$ 791 milhões ao entrar no novo mercado em fevereiro, lançará cerca de R$ 1 bilhão neste ano. O movimento é acompanhado pelas empresas de materiais de construção. "Estamos arrumando a casa para aproveitar a maré dos próximos anos", afirma Dimitrios Markakis, presidente da Dicico. Com faturamento de R$ 400 milhões em 2006, a empresa trabalha para crescer 39% neste ano sustentados por seis novas lojas só em São Paulo. "Quando o Brasil chegar à classificação de grau de investimento, o mercado vai explodir", diz o executivo. E como casa nova sempre pede novos eletrodomésticos, não é necessário dizer que as companhias da linha branca estão à espera. No grupo Whirlpool, dono das marcas Cônsul e Brastemp, o crescimento deve ser acima do mercado projetado em 20%. "Vivemos uma situação atípica com vendas de produtos premium e também de linhas voltadas para as classes menos favorecidas", diz Sérgio Leme, gerente de vendas. Como a roda gira, a Casas Bahia investe R$ 50 milhões para abrir 50 novas lojas, gerando dois mil empregos. Resultado? Crescimento de 10% sobre 2006 para R$ 12,5 bilhões. "Além dos fatores macroeconômicos, também vivemos a inércia de crescimento, com um elo puxando o outro", diz o economista do Santander Maurício Molan.
Diante do apetite da indústria e do comércio, falar em 5% chega a parecer pouco. Ponha na lista o agronegócio e a sensação é de que o País poderia crescer muito mais. No primeiro trimestre a agropecuária cresceu 10% e há muito não se ria tanto no campo. "Vamos crescer 80% neste ano", confirma Sérgio Leme, presidente da Dedini, produtora de equipamentos para usinas de álcool. "Há muito tempo não víamos o País tão bem."
INVESTIMENTO
US$ 2 BILHÕES é o montante que o setor de autopeças aplicará para atender à demanda |