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NEGÓCIOS Quarta-feira, 26 de maio de 2004
continua...
TRENS NA ENCRUZILHADA
Em sete anos de privatização, as ferrovias deixaram de ser um monte de sucata. Mas agora vivem o mesmo dilema de outros setores da infra-estrutura: a falta de dinheiro para eliminar gargalos e voltar a crescer

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Joaquim Castanheira e Gustavo Gantois

  Eduardo Nicolau/AE

Um antigo slogan da Rede Ferroviária Federal dizia que “a Rede segue em frente”. O mote continua verdadeiro, mas uma pergunta segue no ar: onde vai dar esse caminho? O sistema ferroviário brasileiro vive numa espécie de encruzilhada, semelhante ao emaranhado de trilhos que podem ser vistos nos pátios de trens das grandes ferrovias. Desde 1997, quando foi privatizado, o setor experimentou uma expansão sem precedentes. Mais de R$ 4,5 bilhões foram investidos, a carga transportada saltou 34% e os trilhos passaram a responder por 24% do transporte de carga no País, contra 16% antes da chegada da iniciativa privada. A melhoria tornou-se tão visível que os clientes, sobretudo ligados ao agronegócio, não param de aparecer. E, paradoxalmente, a encruzilhada começa aí. Há demanda, há investidores interessados em continuar (ou entrar) no ramo e há uma tremenda necessidade do País por mais ferrovias. O que falta, então? O de sempre, quando o assunto é infra-estrutura: dinheiro. “Se tivéssemos capacidade 20% maior do que a atual, ela estaria inteiramente ocupada”, diz Mauro Dias, diretor da Vale do Rio Doce, que administra 40% da malha ferroviária brasileira e retira do negócio receitas de R$ 2 bilhões a cada ano. Em sete anos de privatização, as ferrovias ganharam um vigor jamais visto, desde que o Barão de Mauá fincou o primeiro trilho de trem em solo brasileiro há 150 anos. Mas para um novo salto, será necessário um novo modelo.

  Biô Barreira

Há, porém, luzes no fim desse túnel. Os chineses, por exemplo, estão dispostos a colocar US$ 3,2 bilhões no mundo dos trilhos brasileiros. O dinheiro viria do Citic, um conglomerado de bancos e estatais chineses com ativos de US$ 80 bilhões. Com essa dinheirama, dois projetos sairiam do papel. O primeiro prevê a construção de um ramal na ferrovia Norte-Sul, ligando o Maranhão à cidade de Anápolis, em Goiás, numa extensão total de quase 1,7 mil quilômetros. O trecho permitiria o escoamento de três milhões de toneladas de soja, colhidos no Centro-Oeste, pelo porto de Itaqui, no Maranhão. Para isso, seria necessária a compra de 208 locomotivas e mais de 4,2 mil vagões. Será um novo impulso no polêmico projeto da Norte-Sul, que no início dos anos 90 foi comprometido por uma concorrência fraudulenta. O segundo projeto dos chineses levaria a Ferronorte até a cidade de Sorriso, em Mato Grosso, criando assim um ligação com a hidrovia Madeira-Amazonas. Só numa primeira fase, seria consumido US$ 1,2 bilhão. Os chineses não estarão sozinhos. Os grupos brasileiros Maggi, maior produtor de soja do mundo, e Itamaraty, do empresário Olacyr de Moraes, serão seus parceiros.

O bom escoamento de soja em território brasileiro tem impacto direto na economia chinesa – e daí vem seu interesse nas ferrovias. Cada aumento de meio dólar na tonelada de soja no mercado internacional representa um acréscimo de US$ 5 bilhões nas compras chinesas do produto. Um sistema de distribuição mais azeitado no Brasil diminuiria os custos dessa oscilação. O retorno para os brasileiros também seria compensador. Segundo os cálculos da Citic, em dois anos as exportações nacionais do grão poderiam dobrar.

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