| O
PRATO NOSSO DE CADA DIA |
Pesquisa
do IBGE revela um Brasil desigual, em que
quase a metade da população diz faltar comida
à mesa |
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Fernanda
Galvão e Fábio
Altman
A Belíndia,
aquele país de ficção criado pelo economista
Edmar Bacha, misto de Bélgica e Índia, da pujança
de um com as carências de outro, chegou definitivamente ao
prato de comida dos brasileiros. As estatísticas assustam:
para 32,8% das famílias, às vezes falta comida. Para
13,83% delas, o alimento é normalmente insuficiente. Somando
as duas parcelas, concluiu-se que 46,63% sofrem com algum tipo de
restrição alimentar – quase a metade da população.
Os números fazem parte da Pesquisa de Orçamentos Familiares
(POF) 2002-2003, realizada pela Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística, o IBGE, e divulgada na semana passada. O estudo
ouviu 48,5 milhões de famílias com 3,6 inte-
grantes cada. É a maior pesquisa deste gênero feita
em nível
nacional desde o biênio 1974-1975.
Há
outras notícias ruins: hoje, a renda da maior parte das famílias
no País (85%) não é suficiente para cobrir
suas despesas. Os gastos fixos – que incluem alimentação,
habitação, saúde, impostos e obrigações
trabalhistas – consomem mais de 90% do orçamento familiar.
Ou seja: a maioria das pessoas não consegue chegar ao final
do mês com a renda que recebe. A primeira grande conseqüência
desse quadro é a redução do nível de
poupança e dos recursos destinados a investimentos. Houve
uma diversificação dos gastos da população,
resultado, principalmente, do aumento da urbanização
e da entrada da mulher no mercado de trabalho.
A
habitação responde hoje pelo maior gasto com consumo
do brasileiro: 35,5% do total de despesas. “Ficou mais caro
manter uma casa”, diz Cornélia Nogueira Porto, responsável
pelo Índice de Custo de Vida (ICV) do Dieese. “As tarifas
dos serviços públicos aumentaram muito, assim como
outros itens indispensáveis. O preço do botijão
de gás aumentou 500% nos últimos sete anos”,
compara. Ela explica que o fenômeno da urbanização
exige também mais gastos com transporte e alimentação,
já que o trabalhador se vê obrigado a fazer as refeições
fora de casa. As despesas com transporte consomem hoje 18,44% da
renda total do brasileiro e a alimentação, 20,75%.
Há,
no entanto, algumas notícias razoáveis, que podem
ser comemoradas. Houve um aumento da renda das famílias,
o que permitiu uma espécie de “sofisticação”
do padrão de consumo, com itens como telefone fixo e celular.
Há ainda uma outra constatação positiva: o
caráter solidário da população. Roupas,
eletrodomésticos
e móveis são freqüentemente doados ou trocados
sem envolvimento de dinheiro. Registra-se também uma redução
do nível de endivida-
mento. Há 30 anos, 3,64% do orçamento familiar era
dedicado ao pagamento de dívidas. Hoje, o índice caiu
para 1,98%. “É preciso entender, no entanto, que a
diminuição do endividamento reflete o baixo nível
de atividade econômica no País”, pondera Cornélia.
“As pessoas têm mais medo de contrair um empréstimo
ou financia-
mento diante da ameaça do desemprego.” 
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