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ENTREVISTA |
Quarta-feira, 19 de maio
de 2004 |
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SHIGEAKI
UEKI
"SOBRA
PETRÓLEO
PORQUE O BRASIL ESTAGNOU" |
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Ex-presidente
da Petrobras prevê que os preços internacionais
irão cair, mas adverte que a auto-suficiência
brasileira é um
mito perigoso. Se a economia crescer, o País terá
de importar
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Ivan
Martins
Talvez
exista alguém no Brasil que entenda mais de petróleo
do que o advogado Shigeaki Ueki, mas é improvável.
Aos 69 anos, esse paulista de Bastos, filho de imigrantes japoneses,
ainda tropeça na letra L quando ela aparece em palavras como
inflação, que pode, tipicamente, se transformar em
infração. Mas quando se trata do mercado mundial
de energia, não há tropeço. Ueki, que já
foi ministro das Minas e Energia, diretor comercial e presidente
da Petrobras, parece discernir, na névoa barulhenta do mercado,
as tendências de longo prazo. Na semana passada, quando o
barril de petróleo chegou a 40 dólares e o alarme
da economia mundial disparou, o empresário e consultor de
empresas reagiu tranqüilo: “Não se justifica toda
a perturbação”. Na conversa que segue, o homem
que enfrentou as duas grandes crises mundiais do petróleo
– em 1973 e 1979 – explica a nova volatilidade das commodities
e defende a privatização da Petrobras. Eis a entrevista:
DINHEIRO – O Petróleo
está a US$ 40 o barril. É caso de se preocupar ou
não passa de outra crise passageira?
SHIGEAKI UEKI – Merece preocupação,
porque US$ 40 o barril é relativamente alto. Mas se olharmos
para outras crises -– 1979 por exemplo -– veremos que
o barril já atingiu US$ 42 o barril. Na guerra do Golfo,
em 1991, o petróleo chegou a US$ 40. O preço de 1979
significa, a preços de hoje, mais de US$ 100 o barril. E
o preço de US$ 40 na década de 90 significa, em preços
atualizados, mais de US$ 50 o barril. Acho que os US$ 40 de hoje
não justificam toda essa perturbação no mercado
mundial.
DINHEIRO – O que está
por trás da elevação dos preços?
UEKI – Há dois tipos de explicação,
a política e a econômica. Na parte econômica
o preço do petróleo subiu por causa do superaquecimento
da economia da China. Há 20 anos a China consumia mais ou
menos o mesmo que o Brasil e hoje está consumindo três
vezes mais. Ela é o segundo consumidor de petróleo
do mundo, depois dos EUA. Só no ano passado o consumo chinês
cresceu 12%. É uma bolha insustentável e o governo
chinês já está preparando o pouso suave. Há
também o aquecimento de verão na economia americana,
que aumentou muito a demanda por gasolina. Nesse caso, o simples
anúncio de que o Fed pretende aumentar a taxa básica
de juros já tem o sentido de esfriar a economia.
DINHEIRO
– O sr. está tranqüilo, mas muitos especialistas
dizem
que o mundo está gastando petróleo demais...
UEKI – De fato, nos últimos
10 anos houve um crescimento de consumo da ordem de 10 milhões
de barris por dia. Passou do pa-
tamar de 70 milhões para 80 milhões de barris. Na
área de produ-
ção não houve um aumento equivalente. Não
houve investimento. Basta ver o balanço das empresas de petróleo.
Elas estão regis-
trando lucros em um patamar que não tiveram no passado. A
demanda é maior do que a oferta.
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