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CAPITAL
EXTERNO: Emerson Kapaz prevê aumento no volume de investimentos
estrangeiros, com regras mais rígidas para o funcionamento
das bolsas de valores
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Frankenstein
na lei das S/A
Projeto que
muda o mercado financeiro tem 46 emendas, atendendo diversos lobbies
Estela
Caparelli e Nelson Rocco
Com
um relatório que irá receber nos próximos
dias, a Câmara dos Deputados promete mudar a maneira como
os negócios societários são feitos no Brasil.
O substitutivo do deputado Antônio Kandir, que altera a
Lei das Sociedades Anônimas, tem apenas 46 emendas, mas
correu o risco de se tornar um verdadeiro Frankenstein. O deputado
recebeu 130 propostas de emenda. Depois de muito peneirar, o número
de emendas se tornou suficiente para remodelar o curso de reestruturações
nas áreas siderúrgica, de petróleo e de mineração
em curso no País. As novas regras vão diminuir
o poder excessivo dos controladores, resume Kandir. De quebra,
pela primeira vez na história, serão definidas em
lei as punições aos crimes cometidos no mercado
financeiro. O relatório é nitroglicerina pura na
queda-de-braço entre lobistas dos controladores e dos minoritários
que já afiaram suas garras. Os representantes dos
acionistas minoritários brigam para receber cada vez mais
por suas ações, enquanto a Abrasca, a entidade que
reúne as companhias abertas, teme que a nova lei torne-se
uma ditadura dos pequenos acionistas, segundo Roberto Faldini,
diretor. Isso sem contar a força dos grandes bancos, que
fizeram de tudo para colocar a colher no trabalho de Kandir, que
já passou meses nas mãos do relator, deputado Emerson
Kapaz. Se aprovado na íntegra, o relatório
irá melhorar o fluxo de capitais externos, num momento
em que são importantes para fechar as contas do País,
defende Kapaz. João Alberto Bernacchio, vice-presidente
da Abamec, a entidade dos analistas financeiros, lembra que Kapaz
já estimou em US$ 20 bilhões o ingresso de dinheiro
no Brasil com uma legislação fortificada. Ele
visitou mais de 30 investidores estrangeiros em vários
mercados. Muitos disseram que estavam deixando de investir no
País por falta de proteção aos minoritários.
Um dos pontos mais sensíveis do relatório trata
das condições de venda das empresas pelos controladores.
Atualmente, a questão é o principal ponto de conflito
entre acionistas que detêm o controle da empresa e os minoritários.
Motivo da briga: os controladores embolsam todo o dinheiro com
a venda do negócio. Os pequenos acionistas perderam muitos
dos seus direitos em 1997, ironicamente com uma lei que ganhou
o nome do próprio Kandir. O objetivo do governo era embolsar
os R$ 22 bilhões com a venda do Sistema Telebrás
sem ter de dividir com os demais acionistas. E assim foi feito
em 98: os donos de ações que estavam fora do bloco
de controle não ficaram com um tostão do ágio.
Waldir Corrêa, presidente da Animec, a associação
dos minoritários, quer ver a lei pronta: O Kandir
acabou com o mercado financeiro. Se ele não apressar a
aprovação da lei, vai ficar com a pecha de ter tido
a chance de se redimir e não o fez. Esses direitos
ficam reestabelecidos no relatório: os minoritários
que tenham ações ON, que dão direito a voto
nas decisões da empresa, irão receber 100% do dinheiro
pago pelos compradores na troca de comando. Os preferencialistas,
que detém ações do tipo PN, passam a receber
80% do valor pago ao controlador.
Essa mudança vai esvaziar os planos de empresários
que pretendem repetir a estratégia para ganhar a maior
quantia possível em negócios grandiosos. Esse é
o caso da Manah. A empresa está recomprando suas ações
do mercado por 50% do preço patrimonial das ações,
já que fez as contas pela média das cotações
em bolsa e ofereceu um prêmio de 20%, tudo como a lei manda
hoje. A AmBev, que anunciou o fechamento de capital da Antarctica
Norte-Nordeste e da Polar na semana passada, prevê gastar
R$ 240 milhões para enxugar os papéis do mercado.
Se a nova lei já estivesse em vigor, a cervejaria teria
de gastar muito mais, já que teria de ser levado em conta
o valor econômico das empresas e não o preço
em bolsa. Para isso, seria feito um cálculo complicado,
chamado fluxo de caixa descontado, que envolve tudo que a companhia
ganharia em um determinado número de anos. Pelas novas
regras, o caso White Martins-Praxair, que se tornou emblemático,
teria outro desfecho. Estimativas dos analistas dão conta
de que, se a lei já tivesse sido alterada, a Praxair teria
de acrescentar mais R$ 230 milhões aos R$ 274 milhões
gastos para tirar as ações da controlada White das
bolsas.
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MINORITÁRIOS:
Antônio Kandir, que eliminou direitos dos pequenos acionistas
para atender aos interesses do governo na privatização das
teles, tem chance de se redimir
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Conselho.
Entre as mais polêmicas propostas está a que
regulamenta o conselho de administração, divisão
das empresas encarregada das estratégias do negócio.
Se aprovada a nova regra, os donos de títulos preferenciais
(PN) com 10% do total de ações ganham o direito
de eleger um integrante no conselho. Mas ficam impedidos de eleger
membros em duas ou mais companhias. É uma maneira de evitar
que haja troca de informações confidenciais entre
o board das duas companhias. Também será exigido
que o acionista vote apenas se detiver aquela determinada participação
na companhia durante três meses ininterruptos. É
uma maneira de barrar investidores espertos que comprem nacos
da empresa na última hora apenas para eleger um membro
do conselho.
Junto das mudanças que já vinham sendo discutidas
pelo deputado Emerson Kapaz, Kandir decidiu incluir uma injeção
de força na Comissão de Valores Mobiliários,
o xerife do mercado de capitais. No relatório, a CVM é
transformada em uma agência reguladora. O projeto
nos dá mais poder, inclusive de suspender assembléias
que não tenham sido comunicadas em um prazo razoável
para os acionistas tomarem conhecimento, diz Norma Parente,
diretora da CVM. Diferentemente do que ocorre hoje, a nova agência
seria um órgão totalmente independente do governo
federal. Essa agência seria responsável por detectar
e punir crimes no mercado financeiro. E é aí que
está uma das grandes novidades do relatório: a definição,
pela primeira vez na história, dos crimes de colarinho
branco. Hoje, a maioria das irregularidades ocorridas nas mesas
de operações é sujeita a meros processos
administrativos na CVM. O relatório é mais duro:
tipifica crimes como comunicação enganosa
e uso de informação privilegiada e determina
penas de prisão e multas para quem sair da linha.
O relatório final de Kandir foi costurado politicamente
no final da semana passada entre o Banco Central, Ministério
da Fazenda e parlamentares. Já tem o aval do presidente
da República e do chefe do BC, Armínio Fraga. Falta
agora passar pela Comissão de Finanças de Câmara.
O governo reconhece que o mercado de capitais é essencial
para os empresários levantarem dinheiro para a nova fase
de crescimento da economia. Por essa razão, a estratégia
é aprovar o projeto no plenário da Câmara
em regime de urgência no próximo mês. Se não
sofrer grandes mutilações, a nova Lei das S/As pode
ser o suspiro que o mercado esperava.
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