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ARMÍNIO
FRAGA: O risco externo prevalece sobre a saúde Nota
10
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A
psicologia do Copom
Que forças
levam o BC a manter os juros apesar da melhora na economia
Ivan
Martins e Fabiane Stefano
Se
a última reunião do Comitê de Política
Monetária fosse uma mesa de pôquer, os oito diretores
do Banco Central que compõem o Copom teriam em mãos
uma quadra de ases. Estava lá a queda de inflação,
que foi de 0,97% no trimestre encerrado em março. Estava
lá o superávit nominal das contas públicas
em março, de R$ 1,2 bilhão. Estavam lá, também,
o crescimento de 3% do PIB no primeiro trimestre e o crescimento
lento, mas ainda assim crescimento, das exportações
brasileiras, que devem conduzir a um saldo positivo de US$ 2 bilhões
na balança comercial deste ano. Era uma bela mão,
sólida naquilo que os economistas gostam de chamar pomposamente
de fundamentos macroeconômicos. Mesmo assim, a equipe capitaneada
por Armínio Fraga preferiu a cautela. Imaginando, talvez,
que os leões de Wall Street teriam do outro lado alguma
coisa como um straight flush, os financistas brasileiros mantiveram
na noite de quarta-feira, dia 24, os juros básicos da economia
em 18,5% ao ano a segunda taxa nominal mais alta do mundo,
o dobro da taxa argentina e quatro pontos percentuais acima da
taxa mexicana. A Selic brasileira está abaixo apenas dos
26,7% praticados na Turquia. E atenção, por favor,
ao fato de que a Turquia enfrenta uma inflação anual
de 68%. Logo, paga-se no Brasil a taxa de juro real mais espetacular
do planeta embora esteja longe de ser a economia mais arriscada
do mundo. Nos dias que antecederam a reunião, Fraga havia
explicado que as incertezas do cenário internacional
leia-se a elevação das taxas de juros nos EUA
e o preço do petróleo a US$ 29 o barril recomendavam
moderação. Essa opinião nada tem de excêntrica
e conta com o respaldo da boa consciência econômica
do País. Ainda assim, visto de Wall Street, o gesto do
Copom pode ser interpretado como hesitação. Afinal,
se os fundamentos do Brasil são tão sólidos,
se o País já fez a proverbial lição
de casa, por que o Copom piscou?
Longe de ser uma decisão indolor, a opção
do Copom pelo caldo de galinha tem um custo pesado para quem não
vive de rendas. Se a decisão tivesse sido de abaixar a
Selic em um ponto percentual, a economia na dívida pública
de R$ 447 bilhões seria de R$ 2,5 bilhões este ano.
Se a queda fosse de dois pontos percentuais, seria de R$ 5,3 bilhões.
Como nada disso aconteceu, nem o governo terá a folga de
caixa de que necessita para investir, nem os contribuintes terão
alívio no cabresto de impostos. Estas taxas já
deveriam estar num patamar muito mais baixo do que o atual,
afirma o deputado Delfim Netto. Em conseqüência da
decisão do Copom, também foi adiado o empurrão
de crédito que a iniciativa privada necessita para voltar
a investir e fazer crescer a economia aumentando, no processo,
a arrecadação de que o governo tanto precisa. Luiz
Fernando Figueiredo, diretor de Política Monetária
do BC, contrapõe a isso o fato de que os juros médios
cobrados ao consumidor final caíram: foram de 58,3% ao
ano para 58,1%. Ao ano... A diferença entre o que os bancos
brasileiros cobram do cliente e o que eles pagam ao governo para
captar o dinheiro continua em cerca de 40%. Esses números
dispensam comentário e mostram que os leões de Wall
Street não estão sozinhos.
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AMAURY
BIER: Relatório mostra que não há risco
de inflação subir
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Há
espaço. O professor Affonso Celso Pastore dizia, um
dia depois da decisão do BC, que o Brasil dificilmente
repetirá nos próximos trimestres o avanço
do PIB obtido entre janeiro e março. O governo teria
espaço para baixar os juros a 16% sem risco de inflação
ou explosão de consumo, acredita Stefan Salej, vice-presidente
da Federação das Indústrias de Minas Gerais.
Na quarta-feira, véspera do Dia da Indústria, uma
passeata de 1.200 empresários em Belo Horizonte exigiu
a reforma tributária. Mas como fazê-la se as taxas
de juros continuam a sangrar o cofre do governo ao ritmo de R$
86 bilhões de reais ao ano? Fraga sentiu a pressão
empresarial em uma reunião na terça-feira, na sede
da Confederação Nacional da Indústria, em
Brasília. Presidentes das federações industriais
cobraram mais ousadia do Copom. Que ele abrisse, finalmente, ao
setor produtivo, um horizonte mais positivo, depois de quase 70
meses de taxas de juros superiores às necessidades de crescimento
e emprego do País. O mesmo presidente do BC, que na segunda
feira havia dito em São Paulo que a economia brasileira
passaria num check-up com nota 10, respondeu aos empresários
que assim que os ventos internacionais permitissem
seria retomada a trajetória de juros declinantes. Não
antes.
A conclusão lógica de eventos e declarações
é que a equipe econômica está operando com
os pés no Brasil e a cabeça em Wall Street. No ano
passado, quando se definiu a política de metas inflacionárias,
imaginou-se que os juros teriam um termômetro claro, ditado
pela evolução interna da economia brasileira. Descobre-se,
agora, que não é bem assim. Um relatório
na mesa de Amaury Bear, secretário-executivo da Fazenda,
mostra que a maior parte dos setores da economia está longe
de atingir seu pico de aquecimento. Por isso, o próprio
governo sabe que a inflação não é
motivo para manter os juros onde estão. Mesmo assim, como
a possibilidade americana assustou o Federal Reserve, os brasileiros
que não vivem de renda são chamados a pagar a conta.
A expressão em inglês inflation targeting passou
a soar ironicamente apropriada para a política do BC. Indicadores
publicados nos EUA na última quinta-feira mostram que a
economia americana cresceu 5,4% no primeiro trimestre, bem acima
das previsões mais pessimistas, por estranho que soe o
adjetivo. Quanto tempo leva para frear suavemente um trem de US$
6 trilhões se deslocando a essa velocidade? O ritmo
da economia americana vai diminuir, mas espera-se que isso aconteça
somente em 2001, afirma José Júlio Senna,
sócio-diretor da MCM e ex-diretor do BC. Ele aposta que
por conta disso os juros brasileiros vão ficar onde estão
até fechar o ano. No máximo, chegarão
a 18,25%, prevê. Para um País que esperava
16% em dezembro, seria um brutal desapontamento. Provavelmente
intolerável. Possivelmente desnecessário. Talvez
o Brasil esteja pagando a conta de ter na direção
do BC uma equipe demasiado sintonizada com o mercado. Os integrantes
do Copom optaram na quarta-feira por maximizar os riscos do crescimento
e minimizar os custos sociais e econômicos da precaução
ortodoxa. Prevaleceu a noção subjetiva de que os
leões de Wall Street não podem ser contrariados.
Mas até quando os brasileiros vão seguir trabalhando
para alimentar leões?
Com
reportagem de Expedito Filho e Estela Caparelli, de Brasília
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