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CAPA DA SEMANA

KENNETH MACKAY
“Não somos protecionistas”
O negociador de Clinton na Alca diz que empresários sempre reclamam, lembra que seu país tem o maior déficit comercial do mundo e sugere aos insatisfeitos ir à OMC

Nelson Rocco

Foto: Calé

Kenneth MacKay, o representante especial do presidente Bill Clinton para as negociações da Área de Livre Comércio das Américas, a Alca, levou um belo susto na semana passada. Recém–empossado na função, o político democrata da Flórida chegou ao Rio para a reunião da Cúpula Econômica do Mercosul esperando encontrar a afabilidade diplomática de sempre. Nada disso. Irritados pelas declarações recentes da secretária de Estado Madeleine Albright, que criticou a perversidade social brasileira, e cansados do velho e eficaz protecionismo americano, os funcionários do governo brasileiro se revezaram em mandar recados agressivos ao governo do Norte. De uma hora para outra, o simpático MacKay, de 67 anos, viu-se no meio de um tiroteio. Ele representa um presidente que está batendo em retirada e não tinha absolutamente nada a oferecer além do empenho americano em criar a Alca – pela qual os diplomatas brasileiros e argentinos não demonstram o menor entusiasmo. A única notícia positiva que MacKay trouxe de Washington foi a projeção de que o déficit comercial brasileiro com os Estados Unidos será revertido ainda este ano em favor do Brasil. Na tarde de terça-feira, 9, depois do encerramento da Cúpula do Mercosul, MacKay falou à DINHEIRO enquanto enganava a fome com sanduíches.

DINHEIRO – Nestes dias no Rio o sr. não teve a impressão de que o clima de negociação comercial entre o seu país e o Mercosul está se deteriorando? O ministro da Agricultura brasileiro, por exemplo, disse que o Brasil só comprará trigo dos EUA se os EUA comprarem mais carne do Brasil...
KENNETH MACKAY
Veja, as vendas agrícolas do Brasil para os Estados Unidos são de US$ 2 bilhões ao ano, enquanto as vendas americanas para o Brasil são de US$ 200 milhões. Acho que não estamos sendo tão maus assim. Quanto ao clima de negociação, só posso dizer que estamos avançando rapidamente na agenda de reuniões da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Não temos tido qualquer problema.

DINHEIRO – Não parece estranho aos americanos que os países do Mercosul estejam resistindo a ingressar na Alca enquanto a maioria dos países do hemisfério está louca pela área de livre comércio?
MACKAY
Não ouvi nada que me leve a acreditar que os governos do Brasil e da Argentina estejam resistindo à Alca. Acredito que eles estejam dizendo que querem tratamento igual e tratamento sério. Nós esperávamos por isso. Esperávamos por uma negociação dura. Do nosso ponto de vista está tudo bem.

DINHEIRO – Os Estados Unidos estão preparados para fazer alguma concessão às demandas do governo brasileiro por maior acesso ao mercado americano e pelo fim das barreiras não-tarifárias aos produtos do Brasil?
MACKAY –
Eu não vim aqui para fazer concessões. Vim para dizer que estamos profundamente comprometidos com a criação da Alca e que achamos que essa é a melhor maneira de aumentar e melhorar o comércio em todo o hemisfério. O governo americano é limitado nessas questões de comércio pelas leis do país. E posso lhe dizer que há muita gente nos Estados Unidos que pensa que nós deveríamos ser mais agressivos ao negociar. Nós todos devemos estar preparados para ver a comunidade de negócios, que é muito competitiva, reclamar dos acordos comerciais em termos muito emocionais.

DINHEIRO – O sr. disse que o déficit comercial do Brasil com os EUA será revertido nos próximos meses. Em que se baseia essa previsão?
MACKAY –
Tenho dito que a tendência em nossas relações comerciais, que colocava os EUA em superávit e o Brasil em déficit, está sendo alterada por causa da desvalorização do real. Este ano, em 2000, os EUA vai voltar a ter déficit com o Brasil e com o restante da América Latina. É uma projeção do Departamento de Comércio. Nós consideramos isso perfeitamente normal. Em relações comerciais normais sempre haverá superávit em algum dos lados.

DINHEIRO – A América Latina é a única região do mundo com a qual os EUA mantinham superávit comercial. Como o sr. recebe essa mudança?
MACKAY –
De fato, a AL é a única área com que temos um superávit. Mas acho que isso estava mais relacionado à desvalorização cambial do que ao próprio comércio. Agora o nosso relacionamento comercial com a América Latina vai ficar mais parecido com o que temos com o resto do mundo. Acho importante que as pessoas pensem no fato de que os Estados Unidos têm um déficit comercial de US$ 300 bilhões por ano e ainda são acusados de não terem um mercado aberto. Ninguém tem um mercado mais aberto do que o nosso. Nosso déficit comercial não deixa dúvida sobre isso.

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